Acordava cedinho, com a ansiedade espantando o sono e impedindo que meu corpo permanecesse sob as cobertas.
Como era difícil esperar o tempo passar! Até que, enfim, ouvia o carro parar em frente de casa. Saía em disparada para recebê-lo. Depois dele conversar com meus pais e de tomar o café passado na hora no coador de pano, saíamos finalmente.
Meu tio morava em Sorocaba e ia a um rancho próximo a Angatuba para pescar no rio Paranapanema. Como minha casa em Itapetininga ficava no meio do caminho, não havia maiores dificuldades para me levar.
Geralmente ele trazia dois sobrinhos que também moravam em Sorocaba. E nós, três crianças entre os 10 e 12 anos, e ele, ex-pracinha, veterano da Segunda Guerra Mundial, tão diferentes em idade, formação e experiência, nos uníamos em torno da pescaria. Ele, procurando sossego, paz, silêncio; nós, em busca de experiências, do desconhecido, da diversão. Ele, com paciência nos compreendia e ensinava; nós, com perplexidade o admirávamos e aprendíamos.
Às vezes dormíamos no rancho à beira do rio. Feito de madeira, muito simples, com dois beliches, um pequeno fogão e apetrechos de pescaria, o rancho se tornava nosso refúgio, onde nossa imaginação criava asas. Levantar com o nascer do sol, sentir a neblina sobre a água enquanto o barco deslizava suavemente era uma experiência e tanto. Apenas suplantada pela explosão de alegria quando pegávamos um peixe.
E ele, homem solitário, com imagens e sombras de um passado distante mas sempre presente em sua mente e coração, profundas demais para serem verbalizadas, com seu jeito direto e objetivo de agir, nos ensinava, nos corrigia, permitia que crescêssemos à sua sombra.
Na adolescência desejei ser militar. Até prestei concurso para uma escola militar. Com o tempo abandonei essa vocação. Mas a experiência me lembra como ele marcou minha vida.
Anos atrás, quando recebi a notícia de sua morte, fiquei muito triste, ainda mais por não ter podido vê-lo pela última vez em vida. Vida que, com suas muitas obrigações e compromissos, acabou por nos distanciar. Restou o último olhar para seu corpo sem vida.
Ele continuava o mesmo. Feição impassível, séria, com ar de quem viveu muito e viu coisas que um ser humano não precisaria ter visto. Ao dar adeus àquele homem que admirei tanto, e que naquele momento me culpava por não ter revelado a ele tal sentimento, senti, mesmo que ingenuamente, em seu silêncio, o convite para ir pescar ao nascer do sol.
Crônicas de fatos, datas e pessoas, do passado e do presente, que são importantes para mim.
quinta-feira, 27 de agosto de 2015
sexta-feira, 24 de julho de 2015
Mateus, o menino que pegou o sol
Manhã bonita de inverno, estou em meu quarto ajeitando algumas coisas e ligando o computador para mais um dia de trabalho. Claudia, minha esposa, igualmente começa sua rotina recolhendo roupas para lavar e deixando o quarto pronto para um novo dia.
Em meio às ações que fazemos quase mecanicamente, Mateus, nosso netinho de um ano e meio entra no quarto. Claro, paramos tudo para dar atenção a ele. Mexe aqui, tira uma coisa do lugar ali, quer sentar à frente do computador. Quando uma criança está presente o mundo para. Pelo menos para os avós.
A janela está aberta e por ela entram o ar fresco da manhã e um raio de sol. Ele cruza boa parte do ambiente indo instalar-se no meio do quarto. Mateus descobre o sol.
Estica a mãozinha até ser tocado pelo feixe de luz. Ri. Retira a mão e a coloca novamente. Misteriosamente o sol some e ressurge. Mateus ri com prazer. Nós, deixando a posição de expectadores, entramos na brincadeira. Brincamos de pegar o sol. Interrompo o raio com a palma da mão aberta e, ao ser iluminada, fecho-a rapidamente. Mostro a mão fechada para Mateus e digo que peguei o sol. Quando abro, decepção, o sol fugiu! Mateus faz o mesmo e ri. Rimos com ele e nos divertimos.
Ficamos um tempo brincando com Mateus de pegar o sol. Sabemos pelas leis da física que isso não é possível. Mateus ainda não sabe. Ele pegou, de fato, o sol. Várias vezes! E isso deu prazer a ele e a nós.
Pegar o sol. Como nós adultos precisamos voltar a fazer isso! Sentir seu calor, ver, em sua extensão, a perfeição de seu percurso, a explosão de cores que ele traz. Brincar de prendê-lo. De guardá-lo para nós. Claro, isso é impossível. Mas o prazer que sentimos, isso sim, é real, muito real. Tão real como as gargalhadas de Mateus.
Nessa manhã de inverno ensolarada nosso netinho nos deu outra lição. Ou melhor, nos convidou novamente para sentirmos os prazeres mínimos, mas belos, da vida. Brincar de pegar o sol. Permitir que o irreal, o desejo, o prazer, o sonho, guiem nossas vidas. Nem que seja por um pouquinho de tempo.
Precisamos disso. Carecemos disso. Obrigado, Mateus, por ter pego o sol!
Em meio às ações que fazemos quase mecanicamente, Mateus, nosso netinho de um ano e meio entra no quarto. Claro, paramos tudo para dar atenção a ele. Mexe aqui, tira uma coisa do lugar ali, quer sentar à frente do computador. Quando uma criança está presente o mundo para. Pelo menos para os avós.
A janela está aberta e por ela entram o ar fresco da manhã e um raio de sol. Ele cruza boa parte do ambiente indo instalar-se no meio do quarto. Mateus descobre o sol.
Estica a mãozinha até ser tocado pelo feixe de luz. Ri. Retira a mão e a coloca novamente. Misteriosamente o sol some e ressurge. Mateus ri com prazer. Nós, deixando a posição de expectadores, entramos na brincadeira. Brincamos de pegar o sol. Interrompo o raio com a palma da mão aberta e, ao ser iluminada, fecho-a rapidamente. Mostro a mão fechada para Mateus e digo que peguei o sol. Quando abro, decepção, o sol fugiu! Mateus faz o mesmo e ri. Rimos com ele e nos divertimos.
Ficamos um tempo brincando com Mateus de pegar o sol. Sabemos pelas leis da física que isso não é possível. Mateus ainda não sabe. Ele pegou, de fato, o sol. Várias vezes! E isso deu prazer a ele e a nós.
Pegar o sol. Como nós adultos precisamos voltar a fazer isso! Sentir seu calor, ver, em sua extensão, a perfeição de seu percurso, a explosão de cores que ele traz. Brincar de prendê-lo. De guardá-lo para nós. Claro, isso é impossível. Mas o prazer que sentimos, isso sim, é real, muito real. Tão real como as gargalhadas de Mateus.
Nessa manhã de inverno ensolarada nosso netinho nos deu outra lição. Ou melhor, nos convidou novamente para sentirmos os prazeres mínimos, mas belos, da vida. Brincar de pegar o sol. Permitir que o irreal, o desejo, o prazer, o sonho, guiem nossas vidas. Nem que seja por um pouquinho de tempo.
Precisamos disso. Carecemos disso. Obrigado, Mateus, por ter pego o sol!
terça-feira, 16 de junho de 2015
Meu clube preferido
Ele não tem piscina. Não possui sauna, nem campo de futebol, quadras, salão de jogos.
Se quiser dançar, não dá. Não tem salão social.
Meu clube preferido nem tem local fixo.
Mas tem uma coisa importante: não cobra mensalidade e não é preciso pagar joia para participar dele.
O clube aceita todo tipo de pessoa. Nele não há distinção de classe econômica, social ou qualquer outra diferenciação que separe os seres humanos.
O que é fantástico no meu clube preferido são as pessoas. Ah, gente boa toda a vida!
Há todo tipo de gente. O falante, que nos faz rir e quase imediatamente fala coisas sérias. Há os quietos, sempre na deles, quase não falando nada, mas com um brilho lindo nos olhos, aproveitando cada palavra e, quando abrem a boca, sempre surgem contribuições preciosas. Há o estudante, com sugestões eruditas, a fim de discutir uma teoria, uma novidade. Há também a apaixonada por histórias, que nos cativa e nos emociona com seu amor pela contos e causos do povo do interior. Frequenta o clube, claro, o aposentado, que é ativo e cheio de ideias e de vigor. Ah, sim, tem o casal apaixonado, um pelo outro, pela vida e por histórias. Há a articuladora, cheia de contatos, de conhecimento, que nos surpreende a cada momento por aquilo que sabe e que viveu. Há o professor. Há os que vão chegando e nos conquistando com seu jeito meigo e amigo.
O clube tem frequência variada. Por ele transita gente rica, pobre, de antigamente, de hoje e, talvez, até de amanhã. Já estiveram nele Agilulfo, o cavaleiro medieval; Felipe, o filho especial e seus pais; Thoreau, o radical; uma multidão de cegos; a distinta senhora Dalloway; a alagoana Macabéa; uma poetisa anciã; a sofrida dona Lola; a família Gattai; a romântica Bovary. Outros virão.
No clube a gente come e conversa. Nem sempre nessa ordem. Em meio a bolos, pães, café, refrigerante e suco, meras desculpas para nos encontrarmos, compartilhamos ideias, histórias, causos, e, o mais importante, um pouco de nós mesmos. E como é bom a cada encontro pegar um pouco da vida de cada um para mim!
O meu clube preferido completou um aninho de vida. Parabéns para ele, parabéns para nós, parabéns ao clube do livro!
Se quiser dançar, não dá. Não tem salão social.
Meu clube preferido nem tem local fixo.
Mas tem uma coisa importante: não cobra mensalidade e não é preciso pagar joia para participar dele.
O clube aceita todo tipo de pessoa. Nele não há distinção de classe econômica, social ou qualquer outra diferenciação que separe os seres humanos.
O que é fantástico no meu clube preferido são as pessoas. Ah, gente boa toda a vida!
Há todo tipo de gente. O falante, que nos faz rir e quase imediatamente fala coisas sérias. Há os quietos, sempre na deles, quase não falando nada, mas com um brilho lindo nos olhos, aproveitando cada palavra e, quando abrem a boca, sempre surgem contribuições preciosas. Há o estudante, com sugestões eruditas, a fim de discutir uma teoria, uma novidade. Há também a apaixonada por histórias, que nos cativa e nos emociona com seu amor pela contos e causos do povo do interior. Frequenta o clube, claro, o aposentado, que é ativo e cheio de ideias e de vigor. Ah, sim, tem o casal apaixonado, um pelo outro, pela vida e por histórias. Há a articuladora, cheia de contatos, de conhecimento, que nos surpreende a cada momento por aquilo que sabe e que viveu. Há o professor. Há os que vão chegando e nos conquistando com seu jeito meigo e amigo.
O clube tem frequência variada. Por ele transita gente rica, pobre, de antigamente, de hoje e, talvez, até de amanhã. Já estiveram nele Agilulfo, o cavaleiro medieval; Felipe, o filho especial e seus pais; Thoreau, o radical; uma multidão de cegos; a distinta senhora Dalloway; a alagoana Macabéa; uma poetisa anciã; a sofrida dona Lola; a família Gattai; a romântica Bovary. Outros virão.
No clube a gente come e conversa. Nem sempre nessa ordem. Em meio a bolos, pães, café, refrigerante e suco, meras desculpas para nos encontrarmos, compartilhamos ideias, histórias, causos, e, o mais importante, um pouco de nós mesmos. E como é bom a cada encontro pegar um pouco da vida de cada um para mim!
O meu clube preferido completou um aninho de vida. Parabéns para ele, parabéns para nós, parabéns ao clube do livro!
segunda-feira, 18 de maio de 2015
Aquele sorriso estranho
Dia desses em que voltava no final de tarde início de noite de São Paulo, onde trabalho, para Campinas, onde moro, já dentro da cidade o ônibus fretado seguia seu percurso habitual. Entre viradas, e descida de passageiros, dobradas, e nova descida de passageiros, e retas, com a habitual descida de passageiros, ele entrou na rua Andrade Neves e subiu em direção ao Castelo.
Estava sonolento. Naquela noite havia dormido apenas uma hora, consequência de um texto que deixei para fechar na última hora. Ia meio desatento, afinal, o caminho era o mesmo, as paradas, as mesmas, as descidas, as mesmas.
O ônibus parou no Castelo em frente a uma pequena casa de shows, com uma porta de entrada estreita. Nada de mais. Ele sempre para ali e a casa de shows continua no mesmo lugar. Mas naquela noite foi diferente.
O pessoal começa a descer e olho para fora distraidamente. Vejo ao lado da porta da casa de shows um homem vestido de cangaceiro, com chapéu e tudo, braços cruzados, sorrindo. Tudo bem, ele deve estar recepcionando os clientes e nada como um sorriso para cativar os que chegam, pensei.
Sorrindo para mim. Interrompi o olhar que vagava de um lugar para outro e fixei naquele homem. Ele sorria para mim! Por que para mim? Havia gente andando pela calçada, além daqueles que haviam descido do ônibus. Bastante movimento, bastante gente. Muita gente para ser olhada. Mas ele continuava olhando para mim através da janela do ônibus. Fiquei encabulado, desviei o olhar.
Recolhi o olhar para dentro do ônibus, para o pessoal que continua descendo; olhei o filme que estava acabando, dei uma conferida na bolsa. Alguns segundos depois, tempo suficiente para despistar o cangaceiro, voltei a olhar, como quem não quer nada, para fora pela janela e... ele continuava sorrindo para mim! – Caramba, que cara chato! Quer me deixar sem graça, certamente. E deixou! Não olhei mais. Ele havia vencido a guerra de olhares.
O ônibus começa a se mover lentamente, após desembarcar o pessoal que não via a hora de chegar em casa. Começo a pensar na minha noite, no banho, em comer alguma coisa, no descanso. Mas não resisto, dou uma última e derradeira olhadela para trás. Quero ver meu algoz, o cara que me deixou constrangido. Olho e vejo. Não, não o vejo. O que vejo é a silhueta de um homem, em tamanho natural, feita de papelão, o verso de um cartaz fixado na porta da casa de shows. Certamente ele continua sorrindo.
Estava sonolento. Naquela noite havia dormido apenas uma hora, consequência de um texto que deixei para fechar na última hora. Ia meio desatento, afinal, o caminho era o mesmo, as paradas, as mesmas, as descidas, as mesmas.
O ônibus parou no Castelo em frente a uma pequena casa de shows, com uma porta de entrada estreita. Nada de mais. Ele sempre para ali e a casa de shows continua no mesmo lugar. Mas naquela noite foi diferente.
O pessoal começa a descer e olho para fora distraidamente. Vejo ao lado da porta da casa de shows um homem vestido de cangaceiro, com chapéu e tudo, braços cruzados, sorrindo. Tudo bem, ele deve estar recepcionando os clientes e nada como um sorriso para cativar os que chegam, pensei.
Sorrindo para mim. Interrompi o olhar que vagava de um lugar para outro e fixei naquele homem. Ele sorria para mim! Por que para mim? Havia gente andando pela calçada, além daqueles que haviam descido do ônibus. Bastante movimento, bastante gente. Muita gente para ser olhada. Mas ele continuava olhando para mim através da janela do ônibus. Fiquei encabulado, desviei o olhar.
Recolhi o olhar para dentro do ônibus, para o pessoal que continua descendo; olhei o filme que estava acabando, dei uma conferida na bolsa. Alguns segundos depois, tempo suficiente para despistar o cangaceiro, voltei a olhar, como quem não quer nada, para fora pela janela e... ele continuava sorrindo para mim! – Caramba, que cara chato! Quer me deixar sem graça, certamente. E deixou! Não olhei mais. Ele havia vencido a guerra de olhares.
O ônibus começa a se mover lentamente, após desembarcar o pessoal que não via a hora de chegar em casa. Começo a pensar na minha noite, no banho, em comer alguma coisa, no descanso. Mas não resisto, dou uma última e derradeira olhadela para trás. Quero ver meu algoz, o cara que me deixou constrangido. Olho e vejo. Não, não o vejo. O que vejo é a silhueta de um homem, em tamanho natural, feita de papelão, o verso de um cartaz fixado na porta da casa de shows. Certamente ele continua sorrindo.
domingo, 10 de maio de 2015
Mães e o capitalismo
Quanto custa? É caro! É barato! É importado! As peças são originais!
Quanto a empresa paga a hora? Trabalha aos finais de semana? Turno? Hora extra? CLT?
É feito artesanalmente. Você não encontrará nada igual! O valor não está nos componentes, mas na composição.
As regras do capital dominam a sociedade. Nada é de graça. Tudo tem um preço. Se for nosso, mais caro, se for do outro, mais barato.
Com as mães não funciona assim. Não mesmo!
Sabe aquela torta que ela levou horas para fazer, com ingredientes especiais e caros? Aquela torta que os filhos adoram?
Quanto custa? Um “muito obrigado, mãe. Estava uma delícia!”.
Sabe aquela madrugada passada no pronto socorro com a filha febril? Apesar da demora no atendimento, as palavras de tranquilidade e calma, o colo quente para o cochilo enquanto o médico não chama?
Quanto vale a hora/hospital da mãe? Um “que bom que você estava comigo, mãe. Precisava tanto de você!”
Sabe aquelas lições de casa intermináveis, que nenhum filho do mundo tem paciência para fazer? Lá está ela, tentando entender a matéria que faz décadas que não vê, procurando explicar aquilo que talvez o professor não explicou direito. E o filho, que não presta atenção, querendo terminar logo a tarefa para jogar vídeo game.
Quanto custa esse tempo? Um mero “você é a melhor professora do mundo, mãe!”
Sabe aquela roupa que chega em casa depois do jogo de futebol do filhão? Aquela pasta molhada e informe que um dia foi um calção e uma camiseta? O par de meias sujas, fedorentas?
Quanto custa separar essas peças das demais e colocá-las para lavar na opção “roupa do filho muito suja”? Um simples “Valeu, mãezona! A roupa ficou massa!”
Sabe aquele vestido, longo, para a formatura, que a filha não conseguiria viver sem ele? Motivo de suspiros e desespero? Aquele vestido, caríssimo, que custará o sacrifício da economia de alguns meses? Aquele vestido que tornará a filha a moça mais linda da cerimônia?
Sabe quanto custa? “Puxa, mãe, você é a melhor mãe do mundo! Te amo!”
Definitivamente, as mães não sabem nada de capitalismo.
Elas sabem, sim, e são pós-doutoras nisso, de dedicação, entrega, sacrifício, amor, amor, amor.
Filhos, sabem quanto custa um dia das mães?
Quanto a empresa paga a hora? Trabalha aos finais de semana? Turno? Hora extra? CLT?
É feito artesanalmente. Você não encontrará nada igual! O valor não está nos componentes, mas na composição.
As regras do capital dominam a sociedade. Nada é de graça. Tudo tem um preço. Se for nosso, mais caro, se for do outro, mais barato.
Com as mães não funciona assim. Não mesmo!
Sabe aquela torta que ela levou horas para fazer, com ingredientes especiais e caros? Aquela torta que os filhos adoram?
Quanto custa? Um “muito obrigado, mãe. Estava uma delícia!”.
Sabe aquela madrugada passada no pronto socorro com a filha febril? Apesar da demora no atendimento, as palavras de tranquilidade e calma, o colo quente para o cochilo enquanto o médico não chama?
Quanto vale a hora/hospital da mãe? Um “que bom que você estava comigo, mãe. Precisava tanto de você!”
Sabe aquelas lições de casa intermináveis, que nenhum filho do mundo tem paciência para fazer? Lá está ela, tentando entender a matéria que faz décadas que não vê, procurando explicar aquilo que talvez o professor não explicou direito. E o filho, que não presta atenção, querendo terminar logo a tarefa para jogar vídeo game.
Quanto custa esse tempo? Um mero “você é a melhor professora do mundo, mãe!”
Sabe aquela roupa que chega em casa depois do jogo de futebol do filhão? Aquela pasta molhada e informe que um dia foi um calção e uma camiseta? O par de meias sujas, fedorentas?
Quanto custa separar essas peças das demais e colocá-las para lavar na opção “roupa do filho muito suja”? Um simples “Valeu, mãezona! A roupa ficou massa!”
Sabe aquele vestido, longo, para a formatura, que a filha não conseguiria viver sem ele? Motivo de suspiros e desespero? Aquele vestido, caríssimo, que custará o sacrifício da economia de alguns meses? Aquele vestido que tornará a filha a moça mais linda da cerimônia?
Sabe quanto custa? “Puxa, mãe, você é a melhor mãe do mundo! Te amo!”
Definitivamente, as mães não sabem nada de capitalismo.
Elas sabem, sim, e são pós-doutoras nisso, de dedicação, entrega, sacrifício, amor, amor, amor.
Filhos, sabem quanto custa um dia das mães?
sexta-feira, 10 de abril de 2015
João
Era para ser Cesário, do meu avô, homenagem de meu pai. Avô que não conheci. Cesário do meu primo, nascido antes de mim. Homenagem de meu tio. Cesário não. Pra que duas homenagens? João Cesário.
João de São João. Não o evangelista. Mas aquele que perdeu a cabeça, ou melhor, que teve a cabeça decepada por ordem de Herodes. João Batista. Vinte e quatro de junho. Inverno, frio. Tempo de pinhão, batata doce, quentão. Quem nasce nesse dia? Joões. Dia de São João Batista. João.
Leonel. Brisola? Ouço a pergunta desde pequeno. Sim, repito desde muito, somos parentes distantes. Mas ele é Leonel Brisola, eu sou João Cesário Leonel. Entenda! Ele, o político importante, tinha Leonel como primeiro nome. Eu, o parente desimportante, tenho o Leonel como sobrenome.
E tem Ferreira. Meio sem importância. O sobrenome composto é estranho. Leonel Ferreira. Por alguma razão a família prioriza o Leonel em detrimento do Ferreira. Isso não teria importância e passaria despercebido não fosse o problemático Sr. Ferreira e Sra. Leonel.
Casados? Como? Possuem sobrenomes diferentes! E aí é que o Ferreira precisa ser explicado. Ele não tem importância, mas dá trabalho. Sim, minha esposa recebeu apenas um sobrenome de minha parte – hoje não precisaria receber nenhum – e escolhemos o Leonel. Eu fiquei com os dois, Leonel Ferreira. Então, quando algum documento é emitido, o dela vem Sra. Leonel e o meu Sr. Ferreira. Em geral a explicação cansa o inquiridor.
João Cesário Leonel Ferreira. Nome oficial, mas quase nunca usado ou proferido. Na infância, ouvir o nome completo ser pronunciado por minha mãe, em tom exclamatório, era certeza de encrenca, se não de uma boa surra. Fora isso, Joãozinho para os familiares quando pequeno, João, para os mesmos familiares, quando já mais crescido. E também para colegas de escolas e amigos de Itapetininga.
A partir de um certo momento, por achar João muito comum, decidi complementá-lo e ao mesmo tempo simplificá-lo: João Leonel. Assim, em um passe de mágica, eliminei os dispensáveis Cesário e Ferreira, que deixam o nome longo demais, e me limitei ao mais importante. O nome herança do pai, e o nome escolha pessoal.
Passo seguinte, resolvi por conta própria priorizar o Leonel assumindo-o como primeiro nome, embora, quando me questionam, cumpro a obrigação de esclarecer que o nome mesmo, o da infância e da família, é João.
Atirador Leonel. Eis a dica que permitiu a mudança. No interior, serviço militar é feito em Tiro de Guerra. E aí, atirador Leonel deu a deixa e a coragem para eu assumir o Leonel. E lá se vão décadas. O atirador ficou para trás, permaneceu o Leonel. No entanto, até hoje, quando meu nome é pronunciado completo, os amigos do Leonel não conseguem ligar pessoa e nome. Fazer o quê. Explico depois.
Devo reconhecer que hoje sinto saudades do João. Saudade que é mitigada com os poucos amigos de antigamente que me chamam assim, e por minha esposa, que resistiu a todos os outros nomes e manteve-se firme ao João.
João, Cesário, Leonel, Ferreira. Meu nome. Minha história.
João de São João. Não o evangelista. Mas aquele que perdeu a cabeça, ou melhor, que teve a cabeça decepada por ordem de Herodes. João Batista. Vinte e quatro de junho. Inverno, frio. Tempo de pinhão, batata doce, quentão. Quem nasce nesse dia? Joões. Dia de São João Batista. João.
Leonel. Brisola? Ouço a pergunta desde pequeno. Sim, repito desde muito, somos parentes distantes. Mas ele é Leonel Brisola, eu sou João Cesário Leonel. Entenda! Ele, o político importante, tinha Leonel como primeiro nome. Eu, o parente desimportante, tenho o Leonel como sobrenome.
E tem Ferreira. Meio sem importância. O sobrenome composto é estranho. Leonel Ferreira. Por alguma razão a família prioriza o Leonel em detrimento do Ferreira. Isso não teria importância e passaria despercebido não fosse o problemático Sr. Ferreira e Sra. Leonel.
Casados? Como? Possuem sobrenomes diferentes! E aí é que o Ferreira precisa ser explicado. Ele não tem importância, mas dá trabalho. Sim, minha esposa recebeu apenas um sobrenome de minha parte – hoje não precisaria receber nenhum – e escolhemos o Leonel. Eu fiquei com os dois, Leonel Ferreira. Então, quando algum documento é emitido, o dela vem Sra. Leonel e o meu Sr. Ferreira. Em geral a explicação cansa o inquiridor.
João Cesário Leonel Ferreira. Nome oficial, mas quase nunca usado ou proferido. Na infância, ouvir o nome completo ser pronunciado por minha mãe, em tom exclamatório, era certeza de encrenca, se não de uma boa surra. Fora isso, Joãozinho para os familiares quando pequeno, João, para os mesmos familiares, quando já mais crescido. E também para colegas de escolas e amigos de Itapetininga.
A partir de um certo momento, por achar João muito comum, decidi complementá-lo e ao mesmo tempo simplificá-lo: João Leonel. Assim, em um passe de mágica, eliminei os dispensáveis Cesário e Ferreira, que deixam o nome longo demais, e me limitei ao mais importante. O nome herança do pai, e o nome escolha pessoal.
Passo seguinte, resolvi por conta própria priorizar o Leonel assumindo-o como primeiro nome, embora, quando me questionam, cumpro a obrigação de esclarecer que o nome mesmo, o da infância e da família, é João.
Atirador Leonel. Eis a dica que permitiu a mudança. No interior, serviço militar é feito em Tiro de Guerra. E aí, atirador Leonel deu a deixa e a coragem para eu assumir o Leonel. E lá se vão décadas. O atirador ficou para trás, permaneceu o Leonel. No entanto, até hoje, quando meu nome é pronunciado completo, os amigos do Leonel não conseguem ligar pessoa e nome. Fazer o quê. Explico depois.
Devo reconhecer que hoje sinto saudades do João. Saudade que é mitigada com os poucos amigos de antigamente que me chamam assim, e por minha esposa, que resistiu a todos os outros nomes e manteve-se firme ao João.
João, Cesário, Leonel, Ferreira. Meu nome. Minha história.
domingo, 5 de abril de 2015
Ressurreição... hoje
“E por que devo eu continuar arriscando a vida de forma tão perigosa? Encaro a morte praticamente todos os dias. Acham que eu faria isso se não estivesse convencido de que nossa ressurreição está garantida pelo Senhor ressuscitado? É a ressurreição que motiva minhas palavras e ações, a minha vida.” (1 Coríntios15.30-32, A Mensagem).
A ressurreição de Jesus Cristo é um fato histórico. A igreja cristã desde seus primórdios creu, afirmou e reafirmou essa frase. Um dos primeiros documentos de fé da igreja, o Credo Apostólico, afirma: “Creio em Jesus Cristo [...] o qual [...] ressurgiu dos mortos ao terceiro dia”.
A ressurreição dos mortos, segundo os teólogos, une Cristologia (estuda a pessoa e obra de Jesus Cristo), Soteriologia (trata da salvação) e Escatologia (estudo dos últimos tempos e da segunda vinda de Jesus).
A ressurreição de Jesus Cristo baseia-se na afirmação de cristãos que dizem terem visto e ouvido o ressurreto. Por isso mesmo, ela foi e é alvo de críticas por ateus, cientistas e outros, uma vez que restou apenas a tumba vazia e o testemunho de alguns homens e mulheres, que foram tidos como ignorantes submetidos a forte tensão emocional, o que teria produzido visões e audições imaginárias.
A cristandade vive um início de século de tristeza e sangue. Cristãos por todo o mundo passam por sofrimento. Cristãos africanos, cristãos asiáticos, cristãos do Oriente Médio, cristãos nas Américas. Há também os assassinatos de cristãos por grupos radicais. Homens cristãos são retirados de seus lares e locais de trabalho para serem brutalmente decapitados ou queimados até a morte. Mulheres e meninas cristãs são vendidas como escravas. Bebês cristãos têm seus crânios esmagados por bestas inumanas.
Muitos deles são pessoas humildes, pobres, de pouca instrução. Pessoas que lutam para viver, e que tem sido assassinadas sem escrúpulos, cujas mortes são tratadas, em termos políticos, como conflitos entre minorias raciais e religiosas.
A ressurreição pode ser provada? Não, não pode. Mas pode ser vista.
Vejo na morte de cada cristão africano, de cada cristã árabe, de cada criança asiática a ressurreição abrindo as trancas da história e invadindo a realidade humana. Vejo no chão banhado com o sangue dos inocentes o perfume de vidas que se elevam para a presença de Deus. Vejo no choro doído de pais, mães, filhos, irmãos e amigos o introito para as canções de louvor dos cristãos ressuscitados no último dia.
Sim, a ressurreição é um fato histórico. Ela tem sido provada desde o passado mais longínquo até o dia de hoje por pessoas que, por amor a Jesus Cristo, relativizam bens, vida social, conforto, segurança, a própria vida. Por aqueles que entendem que, em certos momentos, muito concretos, é preciso perder a vida para ganhá-la.
Sim, a ressurreição é um fato histórico!
A ressurreição de Jesus Cristo é um fato histórico. A igreja cristã desde seus primórdios creu, afirmou e reafirmou essa frase. Um dos primeiros documentos de fé da igreja, o Credo Apostólico, afirma: “Creio em Jesus Cristo [...] o qual [...] ressurgiu dos mortos ao terceiro dia”.
A ressurreição dos mortos, segundo os teólogos, une Cristologia (estuda a pessoa e obra de Jesus Cristo), Soteriologia (trata da salvação) e Escatologia (estudo dos últimos tempos e da segunda vinda de Jesus).
A ressurreição de Jesus Cristo baseia-se na afirmação de cristãos que dizem terem visto e ouvido o ressurreto. Por isso mesmo, ela foi e é alvo de críticas por ateus, cientistas e outros, uma vez que restou apenas a tumba vazia e o testemunho de alguns homens e mulheres, que foram tidos como ignorantes submetidos a forte tensão emocional, o que teria produzido visões e audições imaginárias.
A cristandade vive um início de século de tristeza e sangue. Cristãos por todo o mundo passam por sofrimento. Cristãos africanos, cristãos asiáticos, cristãos do Oriente Médio, cristãos nas Américas. Há também os assassinatos de cristãos por grupos radicais. Homens cristãos são retirados de seus lares e locais de trabalho para serem brutalmente decapitados ou queimados até a morte. Mulheres e meninas cristãs são vendidas como escravas. Bebês cristãos têm seus crânios esmagados por bestas inumanas.
Muitos deles são pessoas humildes, pobres, de pouca instrução. Pessoas que lutam para viver, e que tem sido assassinadas sem escrúpulos, cujas mortes são tratadas, em termos políticos, como conflitos entre minorias raciais e religiosas.
A ressurreição pode ser provada? Não, não pode. Mas pode ser vista.
Vejo na morte de cada cristão africano, de cada cristã árabe, de cada criança asiática a ressurreição abrindo as trancas da história e invadindo a realidade humana. Vejo no chão banhado com o sangue dos inocentes o perfume de vidas que se elevam para a presença de Deus. Vejo no choro doído de pais, mães, filhos, irmãos e amigos o introito para as canções de louvor dos cristãos ressuscitados no último dia.
Sim, a ressurreição é um fato histórico. Ela tem sido provada desde o passado mais longínquo até o dia de hoje por pessoas que, por amor a Jesus Cristo, relativizam bens, vida social, conforto, segurança, a própria vida. Por aqueles que entendem que, em certos momentos, muito concretos, é preciso perder a vida para ganhá-la.
Sim, a ressurreição é um fato histórico!
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