segunda-feira, 15 de julho de 2013

Sons da noite

Deitado, esperando o sono que teima em não chegar, ouço sons. Não são os sons que nos assustam à noite. Latido de cachorros, sensação de ouvir passos na garagem, portas que gemem movidas por correntes de ar furtivas.

Sons que durante o dia não se ouve, abafados pela competição com outros criados pela atividade frenética do ser humano. Dentre tudo quanto a humanidade tem produzido, reinam soberanos os ruídos que testemunham o caráter ambíguo do desenvolvimento da humanidade.

Os sons que ouço se escondem do sol, tímidos e medrosos que são. Temem, acima de tudo, serem abafados por seus concorrentes mais fortes e poderosos, acabando por se diluírem no espaço. Por isso mesmo, esperam a noite. Aguardam as estrelas para sentirem-se à vontade para saírem pelas praças e ruas e para invadirem as residências, onde sempre encontram pessoas, como eu, que os recebem como amigos antigos.

Sons que recordam minha infância quando, em outro lugar e outro tempo, já os ouvia. Sons amigos, que nos momentos de descanso não quebram o silêncio instaurado pela lua, mas chegam mansamente, como uma trilha sonora, produzindo uma música de fundo para as recordações. Não, não são recordações. É o passado que se manifesta tão concreto, invadindo o presente, que me vejo criança novamente. E como isso é bom!

São dois os sons que ligam minha infância com este momento.

Sons de carros em rodovias, que percorrem quilômetros na liberdade da noite alta, e atingem meus ouvidos. Quem estará viajando nesse momento? Um caminhoneiro desejando ganhar tempo com as estradas vazias, tendo como companhia a solidão e a saudade de seus queridos que nesse momento dormem? Ou o viajante em busca de aventuras, dirigindo sem destino? Ou os recém-casados procurando o próximo hotel onde desfrutarão de uma noite repleta de amores? Diante da vida pacata e fixa de minha infância, a imaginação se enchia de prazer em visualizar essas pessoas soltas pelas estradas.

Sons do trem, trazendo o atrito de ferro com ferro e os apitos que marcam seu trajeto. Em algumas noites da infância e de agora, noites calmas, em que o vento sopra trazendo sons distantes, viajei e viajo com o trem imaginário e ao mesmo tempo real. O apito longínquo se une à lembrança da música “Encontros e despedidas” de Milton Nascimento. “O trem que chega/ é o mesmo trem da partida.../ A hora do encontro/ É também, despedida”. Na infância, o desejo e, ao mesmo tempo, o temor da partida. Agora, a certeza da necessidade das partidas e a alegria das chegadas já chegadas.

Em lugar de pensar nos viajantes que correm pelas estradas, penso em mim mesmo. No trem que me leva, nas chegadas e partidas, nas pessoas que encontro, nas que deixo. A marca da despedida sempre presente nos encontros. A expectativa de que as saídas sejam sempre suplantadas por novas chegadas e novos encontros.

Penso e reflito. Mas isso só é possível à noite, com seus sons.

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