terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Cadê a vaga?

O bebê, entre desconfiado e tímido, olha para nós por cima dos ombros da avó. Parece-me que somente ele detecta nossa presença. Adultos dão atenção a outras coisas. Bebês e crianças são atraídos pelos detalhes que escapam aos grandes.

Segunda-feira, shopping, cinema. Entramos no estacionamento em forma de prédio. Embora estivéssemos no meio da tarde, de segunda-feira, não encontramos vaga. Roda pra cá, roda pra lá, e nada. Não consegui reter comigo o pensamento: - Definitivamente não sou uma pessoa urbana! Ir ao shopping, na segunda-feira à tarde, e não encontrar uma vaga de estacionamento, é quase demais para mim!

Havia outros carros na mesma situação. Consolo? Claro que não! Cada um com seu problema! De repente, uma esperança apocalíptica! Vemos pessoas caminhando entre os carros. Estão entrando ou saindo? Torcemos para que estejam indo embora. Vemos cruzarem as fileiras de carros até chegarem à frente de onde estamos, quase parados.

E aí surge uma cena inusitada. Uma mulher e uma senhora, possivelmente mãe e avó, e esta carrega a netinha no colo. Elas seguem rentes aos carros. E nós atrás. E elas caminham, e caminham, e caminham. E nós atrás.

Elas não são nenhuma estrela de Belém, mas nos conduzem, em meio à penumbra do estacionamento, nutrindo nossa fé, rumo à vaga tão desejada.
Dirijo o carro vagarosamente, a uma distância segura, para não assustar nossas guias e, ao mesmo tempo, não permitir que nenhum motorista espertinho chegue à vaga antes de nós.

E vou devagarinho. E elas andam. Nunca chegam! Estamos quase atravessando o estacionamento. Apago o farol do carro para não assustá-las, mas o pisca, sinalizando à direita com sua luz amarela, continua acesso. É meu sinal para os intrusos que aquela vaga, que surgirá, tenho fé, já é minha.

Seguimos em nossa peregrinação percorrendo o estacionamento. A mãe, a vó, o bebezinho, e eu, Claudia e João Guilherme no carro. É a romaria com destino à sacrossanta vaga. Será que a mãe e a avó não perceberam nossa presença? Não sei, é provável que nos tenham visto. Mas se viram, não deram sinal. Afinal, duas mulheres sendo seguidas por um carro com farol baixo no estacionamento do shopping é uma coisa estranha, se não ameaçadora. É melhor ignorar. Mas o bebê não. Ele vai olhando para trás, para nós. O que pensará?

Finalmente, quase na saída do estacionamento, elas param. E eu também. Enquanto aguardamos a liberação da vaga, Claudia e João Guilherme saem apressadamente para comprar os ingressos para a sessão de cinema. Eu continuo aguardando.

Calmamente a mãe desliga o alarme do carro, a avó ajeita o bebê no banco de trás, com todo o cuidado, a mãe abre o porta-malas, distribui nele os pacotes, fecha, toma seu lugar na direção e liga o carro. Dá ré, sem pressa. E sai.

E eu entro! Ajeito o carro na vaga e, enquanto saio apressadamente em direção ao cinema, penso pela última vez no bebê, em seu olhar fixo em nós. Será que ele entende o mundo estranho em que vivemos?

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