Anos atrás tomava os chamados “ônibus de linha” para ir de Campinas, onde moro, a São Paulo, onde trabalho. Ia de rodoviária a rodoviária.
No final do ano lá estavam eles no Terminal Tietê. Mesmo passando rapidamente, sempre em cima da hora de tomar o ônibus, fitava-os até onde o pescoço permitia e o ângulo de visão alcançava.
No outro dia, no outro ano, lá estavam eles. Sentados, sempre tendo diante de si pessoas procurando ajuda. Às vezes até fila havia.
Não sei se eram de alguma ONG, se eram voluntários. Mas gastavam horas escrevendo cartas. Certamente eram pessoas analfabetas que se postavam diante deles. Provavelmente pessoas que chegavam a São Paulo vindas de outras regiões do país, talvez alguns que partiam da cidade. Ou mesmo aqueles que, sabendo do serviço, o procuravam para enviar cartas a familiares e amigos queridos.
E o conteúdo? Imagine!
Descrições felizes de um novo emprego, da boa recepção na casa do parente em que estão alojados, do primeiro salário, dos passeios pela cidade, da partida de futebol no Pacaembu, da expectativa de visitar os familiares no próximo ano. O dinheiro, dobrado com cuidado, no envelope selado com o orgulho daqueles que, distantes, não se esquecem da pobreza e sofrimento dos que ficaram.
Em um daqueles dias, não resisti. Cheguei mais cedo à rodoviária e, diante de um escrevente um tanto perplexo, disse que queria enviar uma carta para meu filho. Mas não teria meu nome como remetente, teria o do Papai Noel! E assim foi feito. Palavras de carinho, afirmações de que o Papai Noel se lembrava de João Guilherme, conselhos para respeitar papai e mamãe (malandragem, não?!) etc.
E esperei. Se não me engano, levou cerca de uma semana ou pouco menos para a carta chegar. Certo dia, quando retorno de São Paulo, encontro João Guilherme eufórico. Havia recebido uma carta do Papai Noel!
Ele tinha cerca de dois anos de idade. Foi emocionante vê-lo falar da carta, mostrar a carta, ver toda a magia do natal concentrada, contida em um pedaço de papel.
João Guilherme nunca mais recebeu cartas do Papai Noel. Talvez preguiça minha, mas meu álibi é que deixei de tomar “ônibus de linha”. Mas quem sabe não me animo neste final de ano e dou uma passadinha pelo Terminal Tietê?
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