Como todo bom administrador, o rei estava preocupado com a deterioração no complexo de prédios do Templo. Por isso, providenciou que os reparos necessários fossem efetuados. Para arcar com os custos, enviou um de seus subordinados para recolher o dinheiro que se encontrava com o sumo sacerdote, fruto de ofertas do povo.
Qual não foi sua surpresa quando, além do dinheiro, o enviado trouxe o recado do sumo sacerdote afirmando ter descoberto o livro da Lei – provavelmente o livro ou o núcleo do livro bíblico do Deuteronômio.
Ao tomar conhecimento de seu conteúdo, o rei reconheceu que estava equivocado em sua administração, e que alterações deveriam ser realizadas. Reuniu o povo, leu o livro diante de todos e renovou o compromisso, seu e de seu povo, com Deus. Como consequência concreta da leitura, retirou do Templo os objetos de adoração a outros deuses e destruiu seus altares. Por fim, celebrou a Páscoa, reconhecendo que somente Deus pode libertar o ser humano.
O rei ouvia a leitura do rolo escrito por Jeremias com as palavras que Deus lhe havia falado. Anteriormente fora lido ao povo pelo servo do profeta, visto que este estava preso. A mensagem exortava o povo a abandonar seus maus caminhos e voltar a Deus. As autoridades reais, ao verem o alvoroço, chamaram o homem e tomaram conhecimento do conteúdo do livro. Ao ouvirem, ficaram assustados e decidiram levar o livro ao rei.
Antes do término da leitura, o rei tomou em suas mãos o rolo e, com uma faca, retalhou e jogou ao fogo o livro. O rei não apenas desprezou seu conteúdo como fez pouco caso dele.
Dois reis, duas atitudes diante do livro.
A primeira história, do rei Josias, está registrada no livro de Segundo Reis, capítulos 22 e 23. A segunda, sobre o rei Jeoaquim, está no capítulo 36 do livro do profeta Jeremias.
O primeiro rei reconheceu que sua administração continha princípios e ações equivocadas, de acordo com o livro lido. O segundo, embora igualmente exercesse uma administração condenável, conforme revelado pelo oráculo divino, manteve-se inalterável, não reavaliando sua gestão.
Entretanto, ambos foram atingidos pela mensagem dos livros. Ambos perturbaram-se com o que leram. Apenas a resposta à leitura foi distinta.
Tzvetan Todorov escreveu um livro intitulado A literatura em perigo. Argumenta que a literatura é frágil e que seu ensino, de modo geral, tem sido feito de modo equivocado, mas que, no entanto, ela continua cativando o ser humano.
Ao ler as duas histórias bíblicas, sem necessariamente discordar de Todorov, sou levado a pensar no oposto, em “o perigo da literatura”. A literatura tem um poder que se expande a partir da leitura. Pode ser para o bem ou para o mal, como as histórias dos dois reais mostram, mas, de qualquer forma, a literatura atua sobre nós.
Onde reside seu perigo? Em mostrar nossas fragilidades, nossos equívocos, nossa humanidade. Não quero dizer que a literatura deve ser instrumentalizada, tornar-se uma ponte para elaborações morais. Não. Mas que em sua simplicidade e complexidade, simpatia e rudeza, beleza e feiura, ela se coloca como um espelho diante de nós. E, ao fazê-lo, nos desarma e toma conta de nossa mente e coração. Esse é o perigo da literatura. Algo de que precisamos, de que somos carentes, que nos deslumbra e assusta, mas de quem não conseguimos nos desligar.
Sim, o perigo da literatura, a menos que sejamos o segundo rei...
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