sábado, 2 de novembro de 2013

Sou médico!

Na época em que morei em Joinville, SC, com certa frequência eu e Cláudia íamos para Itapetininga, SP visitar os familiares.

A viagem durava cerca de oito horas até São Paulo, e de lá mais duas horas e meia até Itapetininga. Normalmente viajávamos à noite, na esperança de dormir um pouco. Mas aqueles que ainda se lembram dos ônibus convencionais da Itapemirim dos anos oitenta sabem que havia pouco de realidade nessa esperança.

Em uma dessas viagens em que eu estava sozinho, no meio da madrugada o passageiro que viajava ao meu lado começou a passar mal, e em seguida sofreu um ataque epiléptico. As convulsões faziam com que batesse repetidamente a cabeça no banco da frente.

Despertado no meio da noite, minha reação diante de tal cena, assim como de todos os que estavam próximos, foi saltar para a frente ou para trás, para longe daquilo que não entendíamos. Felizmente a pessoa se restabeleceu rapidamente e a tranquilidade voltou. E achei outro lugar para sentar.

Pouco tempo depois, nova crise, agora mais violenta.

Pancadas mais fortes no assento, em uma coreografia de dar arrepios. Nova perplexidade e temor coletivos, acompanhados de uma imobilidade geral. Até o momento em que ouviu-se uma voz do fundo do ônibus, que se aproximava rapidamente do centro da crise: - "Com licença, sou médico!". - "Licença, sou médico!".

Pedido atendido, socorro prestado, paciente mais tranquilo, continuamos a jornada até a próxima parada. Ali a vítima foi encaminhada ao hospital da cidade para atendimento e todos ficamos mais aliviados.

Enquanto tomava café e esperava o retorno da viagem, o médico aproximou-se de mim puxando conversa.

- Situação complicada a do moço, não?

- É verdade, mais ainda bem que você estava no ônibus.

- Pois é, mas... sabe, se eu dissesse realmente o que faço, o pessoal não me deixaria atender o rapaz.

- Sério? Por quê? O que você faz?

- Sou veterinário.

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