domingo, 19 de maio de 2013

O hobbit visitou-me no hospital!

1987, Joinville, SC. Alta madrugada, acordei com dores de estômago. Chá, repouso... e nada. Hospital. Por minha sugestão, o plantonista diagnosticou com certeza: intoxicação alimentar! Remédios e retorno para casa. Dali a algumas horas, novamente hospital. Novos remédios e descanso. Dores, e em seguida febre. No dia seguinte, na clínica particular, o médico diagnostica: infecção renal. Antibióticos, repouso, dores e febre persistentes. Com um ano de casados, depois de noites sem dormir diante de um quadro inalterado, Claudia liga para a mãe em Itapetininga, SP. Sarah se lembra do sobrinho urologista em São Paulo. Após algumas ligações, ele sugere a ida para São Paulo. Tempo de colocar poucas roupas nas malas, aeroporto, desembarque na capital paulista.

Dado nos aguardava. A intenção era levar-nos para sua casa. No trajeto, a partir da conversa e dos sintomas indicados, muda de direção e ruma direto para o Hospital Samaritano onde trabalhava. Após alguns exames, o veredito: apendicite, isto é, ex-apendicite, visto que já havia supurado. O quadro era de peritonite e de quase infecção generalizada. Restava abrir (o termo é esse mesmo!) o abdômen, lavar e esperar que o organismo se restabelecesse. Claro que Claudia precisou assinar um termo de responsabilidade devido à gravidade da cirurgia com pouca probabilidade de sucesso, segundo os médicos.

Fiquei cerca de duas semanas no hospital, sendo que por oito dias apenas no soro. Nem uma gotinha de água. Alimento, nem falar. Apenas soro! Foi nesse período que um amigo, Douglas Spurlock, visitou-me levando um livro. Disse-me que era de um autor britânico famoso por escritos que mesclavam elementos do folclore europeu, pesquisas linguísticas e mensagem cristã de fundo. Recebi O Hobbit com um misto de surpresa e curiosidade. Como não havia nada a fazer no hospital – nem levantar da cama podia –, devorei o livro. E a leitura foi simplesmente fantástica! Nunca havia lido nada igual.

Influenciado pela formação teológica que trata de argumentações, doutrinas, provas e raciocínios, ler aquela narrativa foi uma brisa renovadora para minha alma. Tenho que confessar que os elementos cristãos do livro não me fascinaram, pelo menos não nessa leitura – fiz pelo menos mais três. Mas a trama, as personagens, as aventuras, e o fato de seres tão diferentes como um mago, um pacato hobbit e anões temperamentais conviverem e se unirem em prol de um objetivo me fizeram refletir. Ademais, a inserção de orcs, fadas, dragão, elfos etc. me fascinaram mostrando como meu mundo de concretudes e seres insuportavelmente normais e previsíveis era tão carente das fantasias e tramas fantásticas que me propunham questões tão pertinentes e reais.

O contato com o livro me mostrou que é impossível viver sem imaginação. Que a ficção corre nas veias do ser humano. Que sem conhecê-la é praticamente impossível pensar o cristianismo e mesmo entender a Bíblia. Esse pequeno livro me fez ver que eu, como alguém que desejava trabalhar com pessoas e seus problemas, que ambicionava trilhar um caminho em direção ao coração dos seres humanos, estava equivocado. Afinal, julgava que as certezas dogmáticas e os argumentos da razão poderiam me amparar. Eles possuem seu espaço, mas certamente não eram o que eu precisava.

O momento em que vivia potencializou a leitura de O Hobbit.

Como um jovem que com 25 anos quase experimentara a morte, eu estava repensando várias questões. Posso dizer que O Hobbit me ajudou imensamente no processo.

Neste momento em que escrevo, tenho diante de mim o mesmo livro que recebi de presente há 25 anos. Ele já está velhinho devido às várias leituras. Mas eu o guardo com carinho. Ao folhear suas páginas lembro-me de meu querido amigo Douglas, que retornou para os EUA e do qual não tenho mais notícias; lembro-me de Sarah, minha sogra, tão solícita e pronta para ajudar no que fosse necessário; lembro-me de minha querida esposa Claudia, que praticamente adolescente enfrentava com coragem meu sofrimento e o seu próprio; lembro-me do início das noites de inverno no hospital, sempre ameaçadoras, que eu enfrentava com a companhia de Bilbo Bolseiro. Toda vez que volto a O Hobbit tenho consciência de que sem a pulsão da ficção dificilmente a vida tem sentido, ou mesmo vale a pena ser vivida. Um livro, uma história, muitas memórias!

A chegada às telas dos cinemas brasileiros do filme O Hobbit me fez pensar em minha experiência com o livro, experiência que foi tão pessoal. Afinal, o hobbit visitou-me no hospital. E isso fez um bem danado para meu corpo e minha alma!

2 comentários:

  1. Fantástico (...y te escribo en mi propia lengua por las impurezas en mi portugués), que viaje al pasado y a momentos tan profundamente memorables que marcaron tu vida. Gracias por ayudarnos a bajar de las "altas'" esferas argumentativas para bajar a las profundidades de la imaginación.
    Esto me trae a la memoria el libro que le regalaste a tu queridísimo amigo José Roberto Corrêa Cardoso - "Con los pobres de la tierra. La justicia social en los profetas de Israel" - Libro que me regaló con tu propia inscripción, texto que me ayudó a despertar un poco más sobre el sentido de ser un verdadero discípulo de Jesús. Un Libro, una historia, muchas memorias.
    Saludos y abrazos a la distancia, de un chileno que aún te sigue leyendo.

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  2. Grande prazer em lê-lo, Waldemar. Como vão as coisas por aí?
    Grato por ler este pequeno texto.
    Um grande abraço!

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