Seu nome era Geraldo. Mas, além dos pais, e talvez nem eles, ninguém o chamava assim. Ele era “Gê”, apelido de infância.
Gê, meu tio. O caçula da grande família de meu pai. E, como tal, o mais mimado, o mais querido. Por irmãos, sobrinhos, parentes, vizinhos. Em uma cidade pequena, ele era uma celebridade na vizinhança.
Ele morava com tia Laida. Ambos solteiros, espantavam a solidão fazendo companhia um ao outro. Ela cuidava dele. Ele dava sentido à vida dela. Assim eram as famílias antigas.
No final da tarde tio Peco, o irmão mais velho, passava pela casa para um bate-papo. Meu pai, sempre que possível, também se fazia presente. Eu e minhas irmãs com ele.
Nós, os sobrinhos, e éramos muitos, o adorávamos. Ele também nos amava. Tratava-nos como iguais. O Gê gostava de estar entre os familiares. Divertia-se conosco. E nós com ele.
Ele era simples, muito simples. Tinha sua roupa preferida, sua comida preferida, suas coisas preferidas. E pronto. Entre elas, e acima de todas, estava a coleção de discos do Roberto Carlos, que eram ouvidos em uma vitrola portátil. Ele possuía todos. Comprados, presentes, de qualquer forma, ele acompanha de perto “O Rei”.
Era muito bonito ver o cuidado que ele tinha com seus discos. Guardava-os militarmente arrumados. Após escutá-los limpava-os cuidadosamente. Tinha orgulho de sua coleção.
Tio Gê era uma pessoa muito simples e sensível. Não tinha sonhos, não conhecia a cobiça, satisfazia-se com o pouco que tinha e com o carinho que recebia. E do pouco que tinha, dava muito a nós.
Uma das tristezas de minha vida é que Gê morreu cedo, com cerca de quarenta anos, quando eu estudava fora. Não estive em seu funeral. Não me avisaram, talvez pelo desejo de poupar-me da dor. Ele foi e continuou sendo um menino. O menino que amava Roberto Carlos.
Lembrar do tio Gê é lembrar de um tempo em que as famílias eram grandes, estavam sempre reunidas, os parentes cuidavam uns dos outros, e as diferenças eram aceitas, compreendidas. Tempos de simplicidade e de felicidade. Tempos em que ter todos os discos do Roberto Carlos era o maior bem que se podia desejar. Tempos em que o tio Gê estava entre nós.
Ah, mais uma coisa. Ele era portador da Síndrome de Down.
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