Após o ofício fúnebre de tia Celita perguntaram-me por que eu não falei. O que estava subentendido é que, como pastor, deveria ter falado alguma coisa. Meio sem graça, disse que não gosto de falar nessas horas e, pensei comigo, vários pastores já haviam falado. Disse também que escreveria alguma coisa. Prefiro a escrita, afinal, em lugar da voz embargada que sempre teima em aparecer nesses momentos e o choro que fecha a garganta em um abraço sufocante impedindo a fala, a escrita permite-me refletir, pensar, e, mesmo emocionado, continuar escrevendo sem interrupções. Para isso os computadores são grandes amigos, pois não carregam os vestígios das lágrimas que buscam persistentemente as folhas de papel e depositam nelas as marcas do coração.
Conheci tia Celita no final dos anos 1970 quando comecei a namorar Claudia. Ela, filhos e netos – no início poucos, depois muitos –, visitavam constantemente a casa da mãe, vó Mária, em Itapetininga. A chegada dos familiares era motivo de festa e encontro entre irmãs e hostes de primos e primas que expandiam sua alegria pela casa, vizinhança e praças da cidade.
Desde os primeiros contatos com tia Celita fiquei impressionado com o que ela me disse: “oro por você todos os dias”. Algum tempo depois fui estudar no seminário presbiteriano em Campinas e Celita, toda vez que me encontrava, continuava dizendo: “oro por você todos os dias. Pastores precisam de oração constante!”.
E assim se deu. Os anos foram passando, casei-me com Claudia, tive filhos. Tia Celita, por sua vez, viu sua vida ser enriquecida com o aumento constante da família. Nossas vidas mudaram. O que não mudou, quando nos víamos, era sua frase: “Oro por você todos os dias”.
Embora julgasse a oração de tia Celita importante, nunca me dei conta de seu real valor. Hoje, penso: de quantas situações fui livrado pela graça e poder de Deus por causa de suas intercessões? Quantas vezes fui fortalecido e recebi graça dobrada pelo fato dela se encontrar de joelhos apresentando a mim e minha família diante do trono de Deus? Quantas vezes o diabo e seus demônios, quando prestes a me tragar, foram colocados para correr por Deus e seus anjos como resposta às orações de tia Celita?
Tia Celita morreu. E agora...
Eu acredito na oração. Creio que Deus, em sua bondade e poder, responde aqueles que dele se aproximam. Tenho convicção de que não há maior meio de graça e de comunhão com Deus do que a oração. E estou certo de que a oração é a forma mais consistente pela qual mostramos amor aos irmãos e ao próximo.
Tia Celita morreu. E agora... quem vai orar por mim?
Sinto-me órfão de suas orações. Mais do que nunca, como nunca senti, vejo que preciso de orações.
Infelizmente a oração não está em moda. Desconfio que os cristãos contemporâneos desaprenderam a oração, impedindo que suas almas respirem e outras pessoas sejam abençoadas. Faltam pessoas como tia Celita. Faltam pessoas que simplesmente digam: oro por você todos os dias!
Outras pessoas oram por mim? Acho e espero que sim. Mas como tia Celita certamente não. Acho que serão necessárias dezenas de cristãos para ocupar o espaço de oração que tia Celita ocupava diante de Deus.
Tia Celita morreu. Desculpem-me filhos e filhas, genros, noras, netos, mas, egoisticamente, o que mais sentirei falta é de sua fala mansa me dizendo a todo encontro: “Oro por você todos os dias!”.
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