segunda-feira, 20 de maio de 2013

Ressurreição. A que horas?

Domingo à noite, final do culto na igreja protestante do interior. Após o canto do último hino e da oração de encerramento, antes de sairmos, o pastor passa aos avisos.

Pessoa séria, com ares solenes próprios da liturgia que seguiu obedientemente, o pastor informa a igreja sobre as atividades da próxima semana. Terça-feira: culto das mulheres na casa da irmã fulana; quarta: reunião dos homens no templo; sábado: encontro dos adolescentes à tarde e dos jovens à noite, e assim por diante.

O último e mais importante aviso diz respeito a uma atividade especial que acontecerá no próximo domingo, domingo de páscoa. Seguindo a tradição das igrejas protestantes, haverá um culto de páscoa, momento em que a igreja celebra a ressurreição de Jesus Cristo. Há uma liturgia especial com hinos cantados pelo coral e pela comunidade, orações e pregação do pastor, todos voltados para o tema da ressurreição.

Eis o pastor, então, em seu último aviso: – Irmãos, domingo que vem haverá o culto da ressurreição!, diz ele, com voz clara e forte. – Todos estão convidados! – Convidem amigos! Tragam familiares! – Depois do culto haverá um café da manhã.

Nós, os jovens, ouvíamos o aviso com certa distração, já pensando no encerramento do culto, quando iríamos para o salão nos fundos da igreja tomar refrigerante, comer bolacha e, principalmente, conversar, dar risadas, ter momentos de descontração. Os adultos, inquietos, preparavam-se para ir embora, certamente pensando no final da noite fria e nas partes do Fantástico que ainda conseguiriam assistir.

Para encerrar, o pastor informa triunfalmente: – O culto será às 6 horas da manhã!

– FIUUUUUUUUUU... CEDO, HEIN?! O aviso foi seguido, de imediato, por um longo assobio e pela expressão curta e assertiva.

Ficamos todos espantados. Uma onda ininterrupta de cabeças virava e revirava em busca do autor da manifestação totalmente estranha que, de forma tão abrupta, quebrara a solenidade do final do serviço religioso. Por fim localizamos, assentado em um dos últimos bancos do templo, o responsável – um bêbado.

Ele ficara em silêncio durante todo o culto, passando mesmo despercebido. Mas agora, talvez já cansado por ter ficado sentado por mais de uma hora, não resistira a esse último exemplo de disciplina espartana por parte dos protestantes. Talvez pensasse: culto à noite, tudo bem, é um lugar quente para se acomodar em uma noite fria, bom até para tirar um cochilo. Mas culto às 6 horas da manhã? Aí não! Aí já é demais! “Cedo, hein?!”

Sua manifestação espontânea pegou a todos de surpresa. Depois de alguns segundos de suspense, gargalhada geral. Afinal, é bem provável que ele tenha expressado o que muitos ali pensavam naquele momento.

Nenhum comentário:

Postar um comentário