terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Natal e crianças... esquecidas

Dezembro é, acima de tudo, o mês das crianças. Elas já estão em férias, com tempo (muito tempo!) livre para brincar. Brincam em casa, na casa de amiguinhos, na rua (quando é possível), no clube, no parque etc. E, além de tudo, eles aguardam o natal. Tempo de receber presentes encomendados meses atrás, tempo de viagens, tempo de rever primos e atualizar brincadeiras e traquinagens.

Natal é o tempo em que nós, adultos, nos tornamos crianças. Seja por brincarmos com os brinquedos que demos aos filhos. Seja por lembrarmos de natais passados em que sentíamos a mesma alegria que vemos nos rostinhos dos pequenos. Ou seja por lembrarmos o início de tudo com o menino Jesus.

As crianças são o centro do natal. Lembramos delas, nos alegramos com elas. E elas dão sentido às nossas vidas.

Este natal será diferente.

Gabriel, 2 anos, dia 12 de dezembro, no Rio de Janeiro; Marina, 2 anos, em São Bernardo do Campo, SP; e Clarisse, de 1 ano e 11 meses, em Belo Horizonte, ambas no dia 17 de dezembro.

Crianças que morreram abandonadas dentro de carros.

Não há como negar que este será o ano das crianças esquecidas. Esquecidas dentro de carros. Crianças que morreram trancadas por adultos dentro de carros.

Como isso pode acontecer? Como podemos (sim, no plural, nós, nossa sociedade) esquecer nossas crianças, aquelas que geramos ou que cuidamos com amor, dentro do carro e sair para a rotina do dia a dia?

Como é possível que aqueles que são o centro de nossa vida e nos dão razão de viver sejam simplesmente esquecidos, como um objeto, como uma bolsa, um casaco, um livro, dentro de um carro?

Estamos doentes. E se precisamos de um sinal de que a sociedade está doente, o sinal foi dado: esquecemos nossas crianças! E passaremos o natal pensando naqueles que se foram sem antes terem tido o prazer de viver apenas um pouquinho mais.

Os evangelhos relatam que Jesus, embora bebê humilde, de pais pobres, nascido em um lugar destinado a animais, não foi esquecido. Pastores foram visitá-lo, magos enigmáticos vindos do Oriente o presentearam, Os velhos Simeão e Ana saudaram sua chegada. E sua mãe esteve com ele até o final. Viu-o ser crucificado.

Não é possível que no natal lembremos do menino Jesus e nos esqueçamos de nossas crianças, dentro de carros. Não é possível celebrarmos o nascimento do salvador e nos perdermos na morte de nossas crianças.

Neste natal alguns presentes não serão entregues. Não haverá substitutos para eles.

Neste natal, lembremos do menino Jesus e, por favor, lembremos de nossas crianças!

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Cadê a vaga?

O bebê, entre desconfiado e tímido, olha para nós por cima dos ombros da avó. Parece-me que somente ele detecta nossa presença. Adultos dão atenção a outras coisas. Bebês e crianças são atraídos pelos detalhes que escapam aos grandes.

Segunda-feira, shopping, cinema. Entramos no estacionamento em forma de prédio. Embora estivéssemos no meio da tarde, de segunda-feira, não encontramos vaga. Roda pra cá, roda pra lá, e nada. Não consegui reter comigo o pensamento: - Definitivamente não sou uma pessoa urbana! Ir ao shopping, na segunda-feira à tarde, e não encontrar uma vaga de estacionamento, é quase demais para mim!

Havia outros carros na mesma situação. Consolo? Claro que não! Cada um com seu problema! De repente, uma esperança apocalíptica! Vemos pessoas caminhando entre os carros. Estão entrando ou saindo? Torcemos para que estejam indo embora. Vemos cruzarem as fileiras de carros até chegarem à frente de onde estamos, quase parados.

E aí surge uma cena inusitada. Uma mulher e uma senhora, possivelmente mãe e avó, e esta carrega a netinha no colo. Elas seguem rentes aos carros. E nós atrás. E elas caminham, e caminham, e caminham. E nós atrás.

Elas não são nenhuma estrela de Belém, mas nos conduzem, em meio à penumbra do estacionamento, nutrindo nossa fé, rumo à vaga tão desejada.
Dirijo o carro vagarosamente, a uma distância segura, para não assustar nossas guias e, ao mesmo tempo, não permitir que nenhum motorista espertinho chegue à vaga antes de nós.

E vou devagarinho. E elas andam. Nunca chegam! Estamos quase atravessando o estacionamento. Apago o farol do carro para não assustá-las, mas o pisca, sinalizando à direita com sua luz amarela, continua acesso. É meu sinal para os intrusos que aquela vaga, que surgirá, tenho fé, já é minha.

Seguimos em nossa peregrinação percorrendo o estacionamento. A mãe, a vó, o bebezinho, e eu, Claudia e João Guilherme no carro. É a romaria com destino à sacrossanta vaga. Será que a mãe e a avó não perceberam nossa presença? Não sei, é provável que nos tenham visto. Mas se viram, não deram sinal. Afinal, duas mulheres sendo seguidas por um carro com farol baixo no estacionamento do shopping é uma coisa estranha, se não ameaçadora. É melhor ignorar. Mas o bebê não. Ele vai olhando para trás, para nós. O que pensará?

Finalmente, quase na saída do estacionamento, elas param. E eu também. Enquanto aguardamos a liberação da vaga, Claudia e João Guilherme saem apressadamente para comprar os ingressos para a sessão de cinema. Eu continuo aguardando.

Calmamente a mãe desliga o alarme do carro, a avó ajeita o bebê no banco de trás, com todo o cuidado, a mãe abre o porta-malas, distribui nele os pacotes, fecha, toma seu lugar na direção e liga o carro. Dá ré, sem pressa. E sai.

E eu entro! Ajeito o carro na vaga e, enquanto saio apressadamente em direção ao cinema, penso pela última vez no bebê, em seu olhar fixo em nós. Será que ele entende o mundo estranho em que vivemos?

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

O dia em que mudei de nome

Os nomes nos dão identidade. Ou melhor, dão a identidade que outros julgam que temos. Afinal, são nossos pais que nos nomeiam, a maior parte das vezes por nos acharem parecidos com um parente, por desejarem homenagear um amigo ou, o que é pior, por idolatrarem um jogador de futebol ou uma atriz de novela.

Nomes definem seres e mesmo objetos. Não é raro prédios, lojas, carros, etc. receberem nomes. É a maneira de seus criadores definirem suas criações. Com isso, os nomes dão personalidade a objetos destituídos dela.

Já perceberam como é irritante, e às vezes humilhante, quando pessoas esquecem nosso nome e, na tentativa de identificar-nos, dizem: - Ei, “coisa”! Como assim, “coisa”?

Neste final de ano recebi a honra de ser patrono dos formandos de teologia do Seminário Presbiteriano do Sul, em Campinas. Turma João Cesário Leonel Ferreira.

Fiquei pensativo, achei estranho. Primeiro, ver meu nome coletivizado. Depois, os motivos que levaram um grupo de alunos a escolher uma pessoa, um nome para representá-los daqui para a frente. Ao final, fiquei muito feliz e lisonjeado por me escolherem. Embora, talvez maior motivo de meu embaraço, não veja razões suficientes para tal homenagem, além da amizade que nutri por esses estudantes, e eles por mim, que, acho, os impediu de pensar mais claramente na escolha do nome.

Turma João Cesário Leonel Ferreira. Eles escolheram meu nome para batizar a turma. Eles levarão meu nome. Sim, é verdade. Mas maior verdade é o fato de que, além disso, eles participaram da mudança de meu nome. Daqui para a frente serei chamado de Turma 2011-2014 do Seminário Presbiteriano do Sul.

Eu não os escolhi, como não escolhi meu nome, mas eles me escolheram, e com isso mudaram meu nome e minha vida. Daqui para a frente, trarei esses alunos e queridos amigos junto de mim. Eles têm meu nome. Eu tenho a amizade deles.
Espero vê-los se desenvolverem, crescerem em seus ministérios, terem bonitas experiências com Deus, passarem por profundas experiências com suas ovelhas. Crescerem como gente e como pastores. Com isso, cresço com eles. O nome deles em mim se agiganta, me envolve, me enobrece.

Meu nome? Turma 2011-2014.

domingo, 30 de novembro de 2014

Encontros de final de ano

Saímos para o almoço de domingo. Dezembro às portas, um clima de natal no ar, pessoas alegres... Muito alegres.

Fomos a uma churrascaria. Chegamos relativamente cedo e conseguimos uma mesa rapidamente.

O garçom nos conduziu à nossa mesa localizada na lateral do restaurante, ao fundo. Ao chegarmos, estranhamos o barulho. Uma família que sentava-se quase ao mesmo tempo que nós, ao nosso lado, também comentou sobre o ruído.

- Val... Val... Val...

Havia uma reunião familiar bem junto a nós. Várias mesas reunidas, tios, tias, primos, avós, avôs, netinhos. Todos estavam lá. Todos!

Não conheço esse pessoal, mas sei que uma delas chama-se Val. - Val... Val... Val...

Um homem chamava incessantemente a tal da Val. Mas ele precisava saber que não havia necessidade que todo o restaurante tomasse conhecimento de que ele precisava falar com a Val.

Risadas, cumprimentos, um tal de gente chegando, tapinhas nas costas, elogios (até imagino as mulheres: “nossa, como você está linda! Emagreceu?”; homens: olha o tamanho da barriga, tomando todas, ô meu!”).

E o tal que não se cansava: - Val... Val... Val...

Depois de um pouco de observação (sim, não havia como não observar a algazarra), Claudia concluiu que não era uma mera reunião familiar; era, de fato, a comemoração do batizado de uma menininha vestida como princesa: roupinha branca, tiara, etc. E soubemos mais: a Val era a mãe da criança!
Alegria de uns (eles), tristeza de outros (nós). Eu, Claudia e João Guilherme praticamente não conseguíamos ouvir um ao outro, tamanho o barulho que a moçada do batismo fazia.

Por fim, acabou a festança. Novos tapinhas nas costas, elogios, falação. – Val... Val... Val... E o pessoal vai embora.

Continuamos nosso almoço. Agora conseguíamos conversar. Sobre o quê? Ah, não sabe? Sobre a Val e seu pessoal, claro!

terça-feira, 18 de novembro de 2014

O natal chegou em janeiro

Natal é sinônimo de presentes. Para aqueles que têm dinheiro, o prazer de dar. Para aqueles que não o tem, a esperança de receber.

Natal é sinônimo de festa. Comida, bebida, encontro com familiares e amigos queridos, encontro com outros não tão queridos assim...

Natal é sinônimo de cristandade. Missas, cultos, celebrações, espírito natalino/cristão no ar, músicas especiais.

Natal é sinônimo de dezembro. Entra novembro e o clima começa a mudar. As lojas se enfeitam, as propagandas na TV estimulam as compras, os shoppings se iluminam. Em dezembro, está tudo pronto. O mês vive em função do natal.

Natal é sinônimo de criança. Afinal a história toda começa com um bebezinho que chega inesperadamente em um lar palestino. Maria fica grávida ainda virgem, José procura entender o que está acontecendo. A criança muda suas vidas. Definitivamente.

Mateus chegou em janeiro. E com ele iniciamos formalmente nosso natal, em janeiro. Alegria de pais, tios, avós.

Chegou envolto em preocupações. Gestação difícil, meses de tensão. Mas ao ver a luz, o vemos perfeito. Complicações fazem de seus primeiros dois meses de vida um constante ir e vir de casa para hospitais. Consultas, pronto-socorro, internações. Sofremos todos. Mas bastava um sorriso, um soninho em nosso colo para nos fortalecer.

É o primeiro natal que eu e Claudia passamos como avós. Experiência especial. Vermos nosso sangue se projetando para o futuro dá um sentido especial à vida. Concretiza a sensação da existência que se estende para além de nós.

Mateus trouxe o natal para janeiro. E o projetou para os meses seguintes. Afinal, a saúde que estabilizou, os quilos ganhos, os primeiros dentinhos, a primeira gatinhada, configuram suas pequenas/grandes conquistas. E mostram como da fraqueza surge a força, a coragem, a persistência.

Estamos próximos do natal. Duas crianças se encontrarão. Mateus, que nos trouxe alegria, e o menino Jesus, que trouxe a salvação. Duas crianças tão distantes e, ao mesmo tempo, tão próximas. Elas serão apresentadas. Tenho certeza que se darão muito bem.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Meus amigos livros

Sempre nutri uma paixão quase irresistível por livros.

Quando estudante, gastava praticamente tudo o que tinha (infelizmente era pouco) com livros. Enquanto amigos iam ao cinema, ao shopping, compravam roupas... eu comprava livros.

Mais tarde, já profissional, vários colegas investiam em roupas de grife, em restaurantes caros etc. Eu? Continuava comprando livros.
Com o tempo, comecei a ter crise de consciência, potencializada pelas opiniões de alguns que me cercavam: por que comprar tantos livros, se certamente não lerei todos? Quantos livros eu já li dentre os que possuo? Por que continuar comprando livros?

Embora agoniado, nunca me dei por vencido. Continuei comprando livros. Em certos períodos mais, em outros menos. Mas sempre ligado aos livros.

Tempos atrás racionalizei algo que já tinha intuído a muito tempo. Livros são como amigos. Gostamos de tê-los por perto. Ao lê-los, sentimos prazer, alegria, somos enriquecidos. Mas mesmo quando não os lemos, eles continuam, como os amigos, ao nosso lado, disponíveis, prontos a uma intervenção quando chamados.

Há, de fato, em minha biblioteca livros que nunca li. Mas isso não os faz desnecessários ou mau investimento. Enquanto esperam ser abertos e sorvidos, eles continuam, em seu silêncio, dizendo-me: - Estou aqui. Obrigado por me comprar. Quando precisar, qualquer que seja a hora, qualquer que seja o estado da tua alma, basta abri-me e conversaremos. Você me lerá, eu te lerei, e aprofundaremos nossa amizade.

E eu, o que respondo? Concordo respeitosamente. Olho para meus livros, aqueles que já li várias vezes, e aqueles que ainda não li e sinto-me confortado. Sei que há pessoas que julgam que os livros me fazem perder espaço em minha casa, sem proveito, principalmente aqueles que nunca li ou mesmo abri. Mas eu sei que eles aguardam o momento certo, a situação adequada para se revelarem a mim. Eu os respeito, eles me respeitam. Nutrimos um sentimento de gratidão mútua e convivemos harmoniosamente.

Hoje não sinto crise nenhuma por ter livros que ainda não li. São meus companheiros, meus amigos, que considero e admiro. Sinto-me privilegiado e tenho o maior orgulho e prazer em poder levá-los comigo durante a vida. Meus amigos livros.

Olha o sorvete!

Manhã de inverno na fria Itapetininga.

João Guilherme, a prima e duas amiguinhas insistem em ir à pista de skate e, por fim, cedo aos pedidos e vamos todos para lá. Além do frio, o tempo está úmido pela chuva que caiu durante a noite. Sento encolhido em um canto buscando esconder-me do vento e as crianças brincam.

Enquanto olho desatento para as crianças e outros dois meninos em suas manobras, vejo à distância um sorveteiro com seu carrinho se dirigindo para a pista. Claro, ele viu as crianças e resolveu dar uma investida. Com os meus não conseguirá nada. Mesmo que peçam. Está muito frio!

Começo a navegar pela internet com o celular. Quando levanto os olhos, eis que o sorveteiro está sentado em um banco e os dois meninos que já estavam na pista estão sentados ao lado dele. E chupando sorvete!

Surpreendi-me, não apenas com a venda bem sucedida, mas principalmente com o fato de que os dois meninos travavam uma conversa animada com o sorveteiro. Pensei: serão vizinhos, conhecidos, parentes? Pode ser. Ou então se conheceram naquele momento. Momento de descansar da caminhada, de interromper as manobras, de sentar e, sem pressa, conversar. Fiquei curioso com o tema do bate papo.
Estava longe e não conseguia ouvir nada. Mas o que uma pessoa de idade, um sorveteiro, teria para falar a dois meninos skatistas? Não faço a mínima ideia. Mas eles conversavam de forma prazerosa.

Fui tocado pela cena. Nela não havia velho e criança. Sorveteiro e skatista. Pessoas não desempenhavam papeis, como é comum em nossa sociedade. Havia, sim, seres humanos trocando experiências, aprendendo uns com os outros, falando desavergonhadamente e sem pressa. Curtindo a venda dos sorvetes, curtindo chupar sorvetes, curtindo uma manhã fria do inverno itapetiningano.