Sempre nutri uma paixão quase irresistível por livros.
Quando estudante, gastava praticamente tudo o que tinha (infelizmente era pouco) com livros. Enquanto amigos iam ao cinema, ao shopping, compravam roupas... eu comprava livros.
Mais tarde, já profissional, vários colegas investiam em roupas de grife, em restaurantes caros etc. Eu? Continuava comprando livros.
Com o tempo, comecei a ter crise de consciência, potencializada pelas opiniões de alguns que me cercavam: por que comprar tantos livros, se certamente não lerei todos? Quantos livros eu já li dentre os que possuo? Por que continuar comprando livros?
Embora agoniado, nunca me dei por vencido. Continuei comprando livros. Em certos períodos mais, em outros menos. Mas sempre ligado aos livros.
Tempos atrás racionalizei algo que já tinha intuído a muito tempo. Livros são como amigos. Gostamos de tê-los por perto. Ao lê-los, sentimos prazer, alegria, somos enriquecidos. Mas mesmo quando não os lemos, eles continuam, como os amigos, ao nosso lado, disponíveis, prontos a uma intervenção quando chamados.
Há, de fato, em minha biblioteca livros que nunca li. Mas isso não os faz desnecessários ou mau investimento. Enquanto esperam ser abertos e sorvidos, eles continuam, em seu silêncio, dizendo-me: - Estou aqui. Obrigado por me comprar. Quando precisar, qualquer que seja a hora, qualquer que seja o estado da tua alma, basta abri-me e conversaremos. Você me lerá, eu te lerei, e aprofundaremos nossa amizade.
E eu, o que respondo? Concordo respeitosamente. Olho para meus livros, aqueles que já li várias vezes, e aqueles que ainda não li e sinto-me confortado. Sei que há pessoas que julgam que os livros me fazem perder espaço em minha casa, sem proveito, principalmente aqueles que nunca li ou mesmo abri. Mas eu sei que eles aguardam o momento certo, a situação adequada para se revelarem a mim. Eu os respeito, eles me respeitam. Nutrimos um sentimento de gratidão mútua e convivemos harmoniosamente.
Hoje não sinto crise nenhuma por ter livros que ainda não li. São meus companheiros, meus amigos, que considero e admiro. Sinto-me privilegiado e tenho o maior orgulho e prazer em poder levá-los comigo durante a vida. Meus amigos livros.
Crônicas de fatos, datas e pessoas, do passado e do presente, que são importantes para mim.
sexta-feira, 25 de julho de 2014
Olha o sorvete!
Manhã de inverno na fria Itapetininga.
João Guilherme, a prima e duas amiguinhas insistem em ir à pista de skate e, por fim, cedo aos pedidos e vamos todos para lá. Além do frio, o tempo está úmido pela chuva que caiu durante a noite. Sento encolhido em um canto buscando esconder-me do vento e as crianças brincam.
Enquanto olho desatento para as crianças e outros dois meninos em suas manobras, vejo à distância um sorveteiro com seu carrinho se dirigindo para a pista. Claro, ele viu as crianças e resolveu dar uma investida. Com os meus não conseguirá nada. Mesmo que peçam. Está muito frio!
Começo a navegar pela internet com o celular. Quando levanto os olhos, eis que o sorveteiro está sentado em um banco e os dois meninos que já estavam na pista estão sentados ao lado dele. E chupando sorvete!
Surpreendi-me, não apenas com a venda bem sucedida, mas principalmente com o fato de que os dois meninos travavam uma conversa animada com o sorveteiro. Pensei: serão vizinhos, conhecidos, parentes? Pode ser. Ou então se conheceram naquele momento. Momento de descansar da caminhada, de interromper as manobras, de sentar e, sem pressa, conversar. Fiquei curioso com o tema do bate papo.
Estava longe e não conseguia ouvir nada. Mas o que uma pessoa de idade, um sorveteiro, teria para falar a dois meninos skatistas? Não faço a mínima ideia. Mas eles conversavam de forma prazerosa.
Fui tocado pela cena. Nela não havia velho e criança. Sorveteiro e skatista. Pessoas não desempenhavam papeis, como é comum em nossa sociedade. Havia, sim, seres humanos trocando experiências, aprendendo uns com os outros, falando desavergonhadamente e sem pressa. Curtindo a venda dos sorvetes, curtindo chupar sorvetes, curtindo uma manhã fria do inverno itapetiningano.
João Guilherme, a prima e duas amiguinhas insistem em ir à pista de skate e, por fim, cedo aos pedidos e vamos todos para lá. Além do frio, o tempo está úmido pela chuva que caiu durante a noite. Sento encolhido em um canto buscando esconder-me do vento e as crianças brincam.
Enquanto olho desatento para as crianças e outros dois meninos em suas manobras, vejo à distância um sorveteiro com seu carrinho se dirigindo para a pista. Claro, ele viu as crianças e resolveu dar uma investida. Com os meus não conseguirá nada. Mesmo que peçam. Está muito frio!
Começo a navegar pela internet com o celular. Quando levanto os olhos, eis que o sorveteiro está sentado em um banco e os dois meninos que já estavam na pista estão sentados ao lado dele. E chupando sorvete!
Surpreendi-me, não apenas com a venda bem sucedida, mas principalmente com o fato de que os dois meninos travavam uma conversa animada com o sorveteiro. Pensei: serão vizinhos, conhecidos, parentes? Pode ser. Ou então se conheceram naquele momento. Momento de descansar da caminhada, de interromper as manobras, de sentar e, sem pressa, conversar. Fiquei curioso com o tema do bate papo.
Estava longe e não conseguia ouvir nada. Mas o que uma pessoa de idade, um sorveteiro, teria para falar a dois meninos skatistas? Não faço a mínima ideia. Mas eles conversavam de forma prazerosa.
Fui tocado pela cena. Nela não havia velho e criança. Sorveteiro e skatista. Pessoas não desempenhavam papeis, como é comum em nossa sociedade. Havia, sim, seres humanos trocando experiências, aprendendo uns com os outros, falando desavergonhadamente e sem pressa. Curtindo a venda dos sorvetes, curtindo chupar sorvetes, curtindo uma manhã fria do inverno itapetiningano.
quinta-feira, 8 de maio de 2014
Minha cidade invizível
“[...] a cidade não conta o seu passado, ele o contém como as linhas da mão, escrito nos ângulos das ruas, nas grades das janelas, nos corrimãos das escadas, nas antenas dos para-raios, nos mastros das bandeiras [...]” (Italo Calvino. As cidades invisíveis, p. 14-15).
A casa da rua São Vicente de Paula, simples, alugada, mas com um quintal enorme onde havia um pessegueiro e uma goiabeira, com seus frutos que eram comidos no pé, caso das goiabas, e que eram requisitados por minha mãe para fazer doce, caso dos pêssegos. A goiabeira era minha preferida. Além dos frutos, eu e meus primos fazíamos nela cabanas que, invariavelmente, não resistiam à primeira chuva.
A praça da Santa Casa, imensa, cheia de árvores, onde meus pais levavam a mim e minhas irmãs para passear e correr.
A escola Adherbal de Paula Ferreira, onde estudei os primeiros anos com os amigos Egon, Bene, Gilberto e outros, com nossas conversas secretas, a azaração com as meninas, as brincadeiras no intervalo, o inspetor de alunos sempre na bronca.
A casa da tia Laida e tio Gê que, como caçula e portador de síndrome de Down, após a morte dos pais foi criado por ela. Tio Peco passando por lá todas as tardes, cheio de histórias. O China, conhecido como Gaúcho, amigo da família e quebra galho para todas as horas, que vivia trajado como sulino sem nunca lá ter morado. Os serões dos tios contando histórias da fazenda onde foram criados: mula sem cabeça, saci, da caipora, alegrias e medos para nós crianças.
O campinho de futebol atrás do Centro de Saúde. Os bons de bola. Os ruins de bola. Os maiores, formando o primeirinho. Nós, os menores, jogávamos no segundinho. Mamoro, o japonês bom de bola e de briga. Arnaldinho, o Tarzan, apelido em tom de gozação por ser magrinho. Serginho, amigão de aprontações. Zequinha, amigo boa praça. Marcão e Irineu, mais velhos, parceiros. O primeiro, zagueirão desengonçado. O segundo, rápido, às vezes acelerava e esquecia a bola. Tuta, fininho, muito bom de bola. Talvez o melhor de todos. Zizo, que se tornou jogador profissional, grande inspiração para todos nós.
As caçadas a passinhos com estilingue. Invariavelmente voltávamos de mãos vazias. E quando um infeliz conseguia acertar uma avezinha havia uma consternação geral. As saídas com os amigos para roubar frutas nos quintais alheios. Os passeios de bicicleta pela cidade.
As matinês nos cines São Pedro e Olana. As moedinhas contadas para comprar bala chita. Assistir Tarzan, Os Dez Mandamentos, King Kong, Mazzaropi.
Essa é a minha cidade. Hoje, mais invisível do que visível, para utilizar a imagem de Italo Calvino. A Itapetininga que conheci existe parcialmente, assim como desaparece aos poucos. Alguns lugares simplesmente não existem mais. No lugar do campinho, um ginásio de esportes; a casa em que morei na rua Quintino Bocaiúva foi demolida; vários casarões históricos vieram abaixo – um, pelo menos, para dar lugar a um estacionamento. A cidade ficou mais feia. As praças quase abandonadas. O comércio do centro da cidade, antes cheio de lojas chiques onde rapazes, moças, senhores e senhoras da elite Itapetiningana faziam compras foi tomado pelo comércio popular e pelas lojas de 1,99.
Mas o que importa? O importante é que, quando para lá retorno, em cada canto, em cada prédio, vejo a “minha cidade”. Cidade invisível e, dessa forma, a minha cidade. O que vejo outros não veem. O que conto da minha cidade muitos não compreendem. Para que a minha cidade exista é necessário tempo, o tempo que traz a saudade, o tempo que idealiza lugares, cria sentimentos, torna eventos corriqueiros em grandes momentos que são guardados na memória.
A minha cidade invisível surge do apagamento da cidade real. Embora ela lá esteja, com tijolos, concreto e asfalto, é a cidade de minha memória, de minhas lembranças, de meus afetos que existe realmente para mim e dentro de mim. Por essa razão, quando vou a Itapetininga faço questão de andar pelas ruas e parar em alguns lugares permitindo que a realidade se dissolva e a minha cidade surja, trazendo de volta a essência do meu ser e alimentando minha alma.
A casa da rua São Vicente de Paula, simples, alugada, mas com um quintal enorme onde havia um pessegueiro e uma goiabeira, com seus frutos que eram comidos no pé, caso das goiabas, e que eram requisitados por minha mãe para fazer doce, caso dos pêssegos. A goiabeira era minha preferida. Além dos frutos, eu e meus primos fazíamos nela cabanas que, invariavelmente, não resistiam à primeira chuva.
A praça da Santa Casa, imensa, cheia de árvores, onde meus pais levavam a mim e minhas irmãs para passear e correr.
A escola Adherbal de Paula Ferreira, onde estudei os primeiros anos com os amigos Egon, Bene, Gilberto e outros, com nossas conversas secretas, a azaração com as meninas, as brincadeiras no intervalo, o inspetor de alunos sempre na bronca.
A casa da tia Laida e tio Gê que, como caçula e portador de síndrome de Down, após a morte dos pais foi criado por ela. Tio Peco passando por lá todas as tardes, cheio de histórias. O China, conhecido como Gaúcho, amigo da família e quebra galho para todas as horas, que vivia trajado como sulino sem nunca lá ter morado. Os serões dos tios contando histórias da fazenda onde foram criados: mula sem cabeça, saci, da caipora, alegrias e medos para nós crianças.
O campinho de futebol atrás do Centro de Saúde. Os bons de bola. Os ruins de bola. Os maiores, formando o primeirinho. Nós, os menores, jogávamos no segundinho. Mamoro, o japonês bom de bola e de briga. Arnaldinho, o Tarzan, apelido em tom de gozação por ser magrinho. Serginho, amigão de aprontações. Zequinha, amigo boa praça. Marcão e Irineu, mais velhos, parceiros. O primeiro, zagueirão desengonçado. O segundo, rápido, às vezes acelerava e esquecia a bola. Tuta, fininho, muito bom de bola. Talvez o melhor de todos. Zizo, que se tornou jogador profissional, grande inspiração para todos nós.
As caçadas a passinhos com estilingue. Invariavelmente voltávamos de mãos vazias. E quando um infeliz conseguia acertar uma avezinha havia uma consternação geral. As saídas com os amigos para roubar frutas nos quintais alheios. Os passeios de bicicleta pela cidade.
As matinês nos cines São Pedro e Olana. As moedinhas contadas para comprar bala chita. Assistir Tarzan, Os Dez Mandamentos, King Kong, Mazzaropi.
Essa é a minha cidade. Hoje, mais invisível do que visível, para utilizar a imagem de Italo Calvino. A Itapetininga que conheci existe parcialmente, assim como desaparece aos poucos. Alguns lugares simplesmente não existem mais. No lugar do campinho, um ginásio de esportes; a casa em que morei na rua Quintino Bocaiúva foi demolida; vários casarões históricos vieram abaixo – um, pelo menos, para dar lugar a um estacionamento. A cidade ficou mais feia. As praças quase abandonadas. O comércio do centro da cidade, antes cheio de lojas chiques onde rapazes, moças, senhores e senhoras da elite Itapetiningana faziam compras foi tomado pelo comércio popular e pelas lojas de 1,99.
Mas o que importa? O importante é que, quando para lá retorno, em cada canto, em cada prédio, vejo a “minha cidade”. Cidade invisível e, dessa forma, a minha cidade. O que vejo outros não veem. O que conto da minha cidade muitos não compreendem. Para que a minha cidade exista é necessário tempo, o tempo que traz a saudade, o tempo que idealiza lugares, cria sentimentos, torna eventos corriqueiros em grandes momentos que são guardados na memória.
A minha cidade invisível surge do apagamento da cidade real. Embora ela lá esteja, com tijolos, concreto e asfalto, é a cidade de minha memória, de minhas lembranças, de meus afetos que existe realmente para mim e dentro de mim. Por essa razão, quando vou a Itapetininga faço questão de andar pelas ruas e parar em alguns lugares permitindo que a realidade se dissolva e a minha cidade surja, trazendo de volta a essência do meu ser e alimentando minha alma.
segunda-feira, 5 de maio de 2014
Cleise, Cinthia, Claudia. Celebração da vida
O pai, morreu de uma fatalidade quando Claudia, a caçula dos cinco irmãos, tinha apenas cinco anos.
A mãe, vendo-se sozinha com as crianças, precisou mudar. De Londrina, onde trabalhou como enfermeira, para Tietê, onde estavam familiares. De Tietê para Itapetininga, buscando uma vida melhor.
Criou com dificuldade os filhos, que precisaram trabalhar desde jovenzinhos para ajudar com as despesas da casa. Cleise, a mais velha, sempre que podia comprava roupas para vestir melhor os irmãos.
Vida de lutas e privações. Os casamentos vieram, e agora cada uma lutava para constituir sua família.
Hoje são jovens avós.
Todo ano elas reúnem-se para celebrar seus aniversários. Saem, apenas as três, para lanchar. Como presente, a aniversariante é dispensada de pagar a conta.
Como acontece em reuniões como essa, há muitas recordações e memórias familiares. O tema poderia facilmente ser os sofrimentos da infância, as penúrias passadas, o trauma com a morte prematura do pai, a dor ao verem a jovem mãe sofrendo, a incompreensão de muitas pessoas, etc., etc., etc. Isso certamente as levaria para o caminho da tristeza e da amargura.
Mas não com elas. Não com Cleise, Cinthia e Claudia. Elas se recordam, sim, dos tempos difíceis, mas como motivo de gratidão a Deus por ter dado forças para elas superarem as dificuldades. Há, acima de tudo, histórias alegres, piadas, causos, risos. Muitos risos, mas muitos risos mesmo!
Cleise, Cinthia e Claudia têm um histórico de lutas e de dificuldades desde a infância e poderiam fazer disso o centro e o tema de suas vidas. Mas resolveram que não seria assim. Resolveram olhar para as coisas belas da vida, dar atenção às surpresas do dia a dia. Resolveram ver no trabalho, nas amizades, na família, na fé motivos de alegria e de prazer para a existência. Resolveram ver no aniversário de cada uma delas razão para um encontro onde festejam a alegria de se pertencerem como irmãs. Uma verdadeira celebração da vida!
A mãe, vendo-se sozinha com as crianças, precisou mudar. De Londrina, onde trabalhou como enfermeira, para Tietê, onde estavam familiares. De Tietê para Itapetininga, buscando uma vida melhor.
Criou com dificuldade os filhos, que precisaram trabalhar desde jovenzinhos para ajudar com as despesas da casa. Cleise, a mais velha, sempre que podia comprava roupas para vestir melhor os irmãos.
Vida de lutas e privações. Os casamentos vieram, e agora cada uma lutava para constituir sua família.
Hoje são jovens avós.
Todo ano elas reúnem-se para celebrar seus aniversários. Saem, apenas as três, para lanchar. Como presente, a aniversariante é dispensada de pagar a conta.
Como acontece em reuniões como essa, há muitas recordações e memórias familiares. O tema poderia facilmente ser os sofrimentos da infância, as penúrias passadas, o trauma com a morte prematura do pai, a dor ao verem a jovem mãe sofrendo, a incompreensão de muitas pessoas, etc., etc., etc. Isso certamente as levaria para o caminho da tristeza e da amargura.
Mas não com elas. Não com Cleise, Cinthia e Claudia. Elas se recordam, sim, dos tempos difíceis, mas como motivo de gratidão a Deus por ter dado forças para elas superarem as dificuldades. Há, acima de tudo, histórias alegres, piadas, causos, risos. Muitos risos, mas muitos risos mesmo!
Cleise, Cinthia e Claudia têm um histórico de lutas e de dificuldades desde a infância e poderiam fazer disso o centro e o tema de suas vidas. Mas resolveram que não seria assim. Resolveram olhar para as coisas belas da vida, dar atenção às surpresas do dia a dia. Resolveram ver no trabalho, nas amizades, na família, na fé motivos de alegria e de prazer para a existência. Resolveram ver no aniversário de cada uma delas razão para um encontro onde festejam a alegria de se pertencerem como irmãs. Uma verdadeira celebração da vida!
domingo, 20 de abril de 2014
Mulher, porque choras?
Os discípulos conviveram intensamente com Jesus durante seu ministério. Foram ensinados por ele, viram seus milagres, seu poder sobre os demônios, experimentaram sua graça e misericórdia e viram nele a presença divina.
Ao se aproximar a sombra da cruz, entretanto, eles não conseguiram permanecer ao lado do mestre. Alguns dormiram no jardim enquanto Jesus orava. Diante da multidão que procurava Jesus para prendê-lo, fugiram todos. Pedro que, cheio de coragem, o acompanhou de longe, negou a serviçais do sumo-sacerdote que o conhecia. Judas, o traidor, não suportou o remorso e suicidou-se.
Preso à cruz, discípulos distantes, são as mulheres, que o acompanhavam desde a Galileia, que permanecem próximas (Jo 19.25). São elas que, sabendo que o corpo de Jesus seria depositado em um túmulo pertencente a José de Arimateia, postam-se em frente ao túmulo para confirmar o paradeiro do corpo (Mt 27.61).
Maria Madalena, da qual Jesus havia expulsado sete demônios e que o seguiu durante seu ministério (Lc 8.2), estava entre as mulheres que viram a crucificação e se colocaram diante do túmulo.
Na madrugada de domingo ela retorna sozinha ao sepulcro. Ao perceber que a pedra que lacrava a porta foi removida, avisa Pedro e o outro discípulo. Estes vão ao local e confirmam o que ela havia dito. Após inspecionar o túmulo, os discípulos retornam para casa. Ela não.
Ela permanece chorando diante do sepulcro (Jo 20.11). Enquanto chora, olha novamente para dentro do túmulo e vê dois anjos. Eles, então, perguntam a ela: Mulher, por que choras? (Jo 20.13). Em seguida, ela olha para trás e vê Jesus, mas não o reconhece. Ele faz a mesma pergunta: Mulher, por que choras? (Jo 20.15).
Seriam reprimendas? Ela deveria conter o choro, afinal, Jesus estava vivo? Não. Em nenhum momento o choro indica falta de fé, desconfiança, incredulidade. Pelo contrário. O choro é a porta de entrada para a demonstração de fé daquela mulher.
Por que choras? Por que ela não sabe onde está o Senhor, e não consegue viver sem ele.
Por que choras? Por que, contrariamente aos discípulos que retornaram para casa, ela quer permanecer no local de onde Jesus saíra vivo, esperando que ele retorne.
Por que choras? Por que é o choro da ausência que permite a Maria Madalena, ao olhar para o sepulcro vazio, ver algo mais, ver os dois anjos, que os discípulos, apressados, não conseguiram ver.
Por que choras? Por que, ao conversar com Jesus, não consegue reconhecê-lo.
Por que choras? Por que não sabe onde está o corpo, mas tão logo saiba, irá até ele e o levará consigo para cuidar dele.
Por que choras? Por que ainda não ouviu o ressuscitado chamá-la nominalmente.
É o choro que faz a transição entre a experiência dolorosa com o Senhor morto e a maravilhosa realidade do Senhor vivo.
É o choro que revela os sentimentos mais profundos do coração daquele que sofre a ausência do mestre amado.
É o choro que, embora revele a fraqueza humana, ao mesmo tempo demonstra a tenacidade de Maria Madalena de não distanciar-se um milímetro sequer de onde esteve Jesus.
É o choro que permite à Madalena ver o que discípulos apressados não viram.
É o choro que nos leva ao lado de Jesus e abre-nos para a experiência mais profunda do cristianismo: ouvir Jesus chamar-nos pelo nome.
É o choro que permite que passemos por momentos terríveis e cruéis, mas também é o choro que expande o coração, a mente e a alma para a experiência fundante do cristianismo: ver e ouvir o Senhor ressurreto.
Maria Madalena, a mulher outrora possuída por espíritos malignos, agora discípula de Jesus, foi privilegiada por ser o primeiro cristão a ver Jesus ressuscitado. O choro a conduziu a tal experiência.
Ao se aproximar a sombra da cruz, entretanto, eles não conseguiram permanecer ao lado do mestre. Alguns dormiram no jardim enquanto Jesus orava. Diante da multidão que procurava Jesus para prendê-lo, fugiram todos. Pedro que, cheio de coragem, o acompanhou de longe, negou a serviçais do sumo-sacerdote que o conhecia. Judas, o traidor, não suportou o remorso e suicidou-se.
Preso à cruz, discípulos distantes, são as mulheres, que o acompanhavam desde a Galileia, que permanecem próximas (Jo 19.25). São elas que, sabendo que o corpo de Jesus seria depositado em um túmulo pertencente a José de Arimateia, postam-se em frente ao túmulo para confirmar o paradeiro do corpo (Mt 27.61).
Maria Madalena, da qual Jesus havia expulsado sete demônios e que o seguiu durante seu ministério (Lc 8.2), estava entre as mulheres que viram a crucificação e se colocaram diante do túmulo.
Na madrugada de domingo ela retorna sozinha ao sepulcro. Ao perceber que a pedra que lacrava a porta foi removida, avisa Pedro e o outro discípulo. Estes vão ao local e confirmam o que ela havia dito. Após inspecionar o túmulo, os discípulos retornam para casa. Ela não.
Ela permanece chorando diante do sepulcro (Jo 20.11). Enquanto chora, olha novamente para dentro do túmulo e vê dois anjos. Eles, então, perguntam a ela: Mulher, por que choras? (Jo 20.13). Em seguida, ela olha para trás e vê Jesus, mas não o reconhece. Ele faz a mesma pergunta: Mulher, por que choras? (Jo 20.15).
Seriam reprimendas? Ela deveria conter o choro, afinal, Jesus estava vivo? Não. Em nenhum momento o choro indica falta de fé, desconfiança, incredulidade. Pelo contrário. O choro é a porta de entrada para a demonstração de fé daquela mulher.
Por que choras? Por que ela não sabe onde está o Senhor, e não consegue viver sem ele.
Por que choras? Por que, contrariamente aos discípulos que retornaram para casa, ela quer permanecer no local de onde Jesus saíra vivo, esperando que ele retorne.
Por que choras? Por que é o choro da ausência que permite a Maria Madalena, ao olhar para o sepulcro vazio, ver algo mais, ver os dois anjos, que os discípulos, apressados, não conseguiram ver.
Por que choras? Por que, ao conversar com Jesus, não consegue reconhecê-lo.
Por que choras? Por que não sabe onde está o corpo, mas tão logo saiba, irá até ele e o levará consigo para cuidar dele.
Por que choras? Por que ainda não ouviu o ressuscitado chamá-la nominalmente.
É o choro que faz a transição entre a experiência dolorosa com o Senhor morto e a maravilhosa realidade do Senhor vivo.
É o choro que revela os sentimentos mais profundos do coração daquele que sofre a ausência do mestre amado.
É o choro que, embora revele a fraqueza humana, ao mesmo tempo demonstra a tenacidade de Maria Madalena de não distanciar-se um milímetro sequer de onde esteve Jesus.
É o choro que permite à Madalena ver o que discípulos apressados não viram.
É o choro que nos leva ao lado de Jesus e abre-nos para a experiência mais profunda do cristianismo: ouvir Jesus chamar-nos pelo nome.
É o choro que permite que passemos por momentos terríveis e cruéis, mas também é o choro que expande o coração, a mente e a alma para a experiência fundante do cristianismo: ver e ouvir o Senhor ressurreto.
Maria Madalena, a mulher outrora possuída por espíritos malignos, agora discípula de Jesus, foi privilegiada por ser o primeiro cristão a ver Jesus ressuscitado. O choro a conduziu a tal experiência.
sábado, 19 de abril de 2014
Trevas
“houve trevas sobre toda a terra” (Mt 27.45).
“Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mt 27.46).
“E Jesus, clamando outra vez com grande voz, entregou o espírito” (Mt 27.50).
“tirando-o do madeiro, envolveu-o num lençol de linho, e o depositou num túmulo aberto em rocha [...] Era o dia da preparação” (Lc 23.53-54).
“trancadas as portas da casa onde estavam os discípulos com medo dos judeus” (Jo 20.19).
Depois de um período se caminhada com Jesus, para a qual deixaram suas vidas de pescadores, revolucionários, cobradores de impostos etc., a aventura chega ao fim.
Depois de ouvirem e verem coisas maravilhosas e serem inflados pela esperança da chegada de um reino de paz e justiça, a aventura chega ao fim.
Depois de verem o diabo derrotado por Jesus e pessoas libertas, a aventura chega ao fim.
Depois de testemunharem o mestre, sobre o qual depositaram fé e pelo qual se deixaram guiar, ser preso, brutalmente espancado, crucificado e, para o espanto deles, declarar que Deus o havia abandonado, morrer como um criminoso comum, a conclusão dos discípulos é que a aventura realmente chegou ao fim.
Depois de presenciarem o corpo de Jesus ser retirado da cruz e depositado em uma caverna e esta ser selada com uma rocha, eles voltam as costas e seguem, apressados, para se esconderem, temerosos dos judeus. Afinal, a aventura chegou a um triste fim.
Decepcionados, entristecidos, sentindo-se enganados, sem esperança, escondidos de tudo e de todos, os discípulos sentem que as trevas que cobriram a terra quando da morte de Jesus atinge seus corações.
Com a morte de Jesus, a terra volta a ser “sem forma e vazia” e “as trevas retornam sobre a face do abismo”.
Afinal, a aventura chegou ao fim.
O período entre a sexta-feira e o domingo foi o pior momento na vida dos discípulos. Jesus, o Senhor da vida, havia sido vencido pela morte. Sua voz silenciada, seus discursos perdidos no tempo, suas ações transformadas em meras lembranças.
Jesus estava morto. Então, restavam apenas as trevas e o medo.
Medo vivido da sexta até a madrugada do domingo.
Medo de quem olha para o passado e vê desilusão. Medo de quem tenta olhar para o futuro e vê apenas vazio.
Como viver esses dias? Como sobreviver a eles?
A sexta-feira está chegando ao fim, levando consigo o corpo de Jesus, as esperanças dos discípulos e os ecos dos gemidos de dor do universo. O sábado se aproxima, dia longo em que as celebrações judaicas não terão sentido para os seguidores do rabi morto.
Tempo de espera, em que o vazio se expande ameaçando invadir corpos e mentes frágeis demais para resistir.
Trevas.
“Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mt 27.46).
“E Jesus, clamando outra vez com grande voz, entregou o espírito” (Mt 27.50).
“tirando-o do madeiro, envolveu-o num lençol de linho, e o depositou num túmulo aberto em rocha [...] Era o dia da preparação” (Lc 23.53-54).
“trancadas as portas da casa onde estavam os discípulos com medo dos judeus” (Jo 20.19).
Depois de um período se caminhada com Jesus, para a qual deixaram suas vidas de pescadores, revolucionários, cobradores de impostos etc., a aventura chega ao fim.
Depois de ouvirem e verem coisas maravilhosas e serem inflados pela esperança da chegada de um reino de paz e justiça, a aventura chega ao fim.
Depois de verem o diabo derrotado por Jesus e pessoas libertas, a aventura chega ao fim.
Depois de testemunharem o mestre, sobre o qual depositaram fé e pelo qual se deixaram guiar, ser preso, brutalmente espancado, crucificado e, para o espanto deles, declarar que Deus o havia abandonado, morrer como um criminoso comum, a conclusão dos discípulos é que a aventura realmente chegou ao fim.
Depois de presenciarem o corpo de Jesus ser retirado da cruz e depositado em uma caverna e esta ser selada com uma rocha, eles voltam as costas e seguem, apressados, para se esconderem, temerosos dos judeus. Afinal, a aventura chegou a um triste fim.
Decepcionados, entristecidos, sentindo-se enganados, sem esperança, escondidos de tudo e de todos, os discípulos sentem que as trevas que cobriram a terra quando da morte de Jesus atinge seus corações.
Com a morte de Jesus, a terra volta a ser “sem forma e vazia” e “as trevas retornam sobre a face do abismo”.
Afinal, a aventura chegou ao fim.
O período entre a sexta-feira e o domingo foi o pior momento na vida dos discípulos. Jesus, o Senhor da vida, havia sido vencido pela morte. Sua voz silenciada, seus discursos perdidos no tempo, suas ações transformadas em meras lembranças.
Jesus estava morto. Então, restavam apenas as trevas e o medo.
Medo vivido da sexta até a madrugada do domingo.
Medo de quem olha para o passado e vê desilusão. Medo de quem tenta olhar para o futuro e vê apenas vazio.
Como viver esses dias? Como sobreviver a eles?
A sexta-feira está chegando ao fim, levando consigo o corpo de Jesus, as esperanças dos discípulos e os ecos dos gemidos de dor do universo. O sábado se aproxima, dia longo em que as celebrações judaicas não terão sentido para os seguidores do rabi morto.
Tempo de espera, em que o vazio se expande ameaçando invadir corpos e mentes frágeis demais para resistir.
Trevas.
terça-feira, 15 de abril de 2014
A última conversa
O que dizer àquele que o gerou, que o carregou nos braços, que te deu valores fundamentais para a vida, que, enfim, o constituiu como pessoa e cuidou de você até que conseguisse andar com as próprias pernas e viver por si só?
O que dizer quando ele está ao seu lado, e talvez você nunca mais tenha a oportunidade de lhe dirigir a palavra?
O que dizer ao seu pai, quando ele está agonizando ao seu lado, em um momento em que estão a sós, situação única na vida de pai e filho?
Ele esteve doente por décadas. Cresci vendo-o sofrer. Nos últimos meses piorou e nós, os filhos, resolvemos trazê-lo para perto de mim, visto que minhas duas irmãs moravam em outras cidades.
Minha mãe cuidava dele dia e noite. Ele já estava bem debilitado pela idade e pelo desgaste que a doença, enfisema, além de outras complicações, causaram.
Certo dia, quando eu estava ministrando uma palestra, me chamaram com urgência. Cheguei ao prédio em que meus pais moravam, ao lado de minha casa, e ele estava mal. Muito mal. A ambulância do SAMU foi chamada e o transportou imediatamente para o hospital.
Zoraide, minha irmã que morava em uma cidade próxima, já havia chegado. Então, resolvemos que ela levaria minha mãe de carro ao hospital e eu iria no SAMU acompanhando meu pai.
Foi ali, junto à maca em que ele estava deitado, provavelmente em choque, já sem conseguir falar, respirando com dificuldade, que tivemos nossa última conversa.
Na realidade, não foi uma conversa. Foi um monólogo. Eu falei, ele ouviu. Mas foi o momento mais profundo que tive com meu pai em toda a minha vida. Falei como filho. Falei como homem. Falei como pastor. Mas todas essas facetas de minha vida falaram a mesma coisa: meu amor por ele, minha dificuldade em manifestar esse amor no decorrer de nossas vidas, o desejo de conviver mais com ele, a falta que ele faria para mim, o desejo de vê-lo junto a Deus no momento que se aproximava.
O motorista e seu auxiliar no banco dianteiro provavelmente me ouviram. Talvez tenham achado estranho. Talvez não. Afinal, quantos outros filhos e pais estiveram ali, naquele mesmo lugar em que eu estava? Quantos falaram as mesmas palavras que eles ouviam naquele momento?
Experimentei profunda tristeza durante o trajeto entre o apartamento e o hospital. Naqueles momentos vivenciava, de forma concreta, a limitação e a fragilidade humana. Meu pai partiria em breve e, embora eu estivesse me preparando para sua morte a algum tempo, estava surpreso e despreparado diante da dor que sentia.
Entendi que aquele era o momento da despedida e que talvez não houvesse outra oportunidade. Não o ouvi dizer que me amava, que eu era importante para ele, que eu deveria cuidar de minha mãe etc. Não foi necessário. Eu sabia disso. Embora ele não fosse uma pessoa emotiva e com expressões de carinho, seu amor pela família era um fato. O que importa é que pude dizer ao meu pai tudo que sentia, e eu sabia que o fato dele ter me visto crescer, estudar, casar, ter filhos, possuir uma profissão digna, fazia-o sentir-se orgulhoso.
Ele foi internado em uma unidade de terapia semi-intensiva. No dia seguinte pronunciou algumas palavras e depois não conseguiu mais falar. Dia a dia foi piorando e depois de 20 dias ele faleceu. Foi triste vê-lo morrer em um hospital, longe do lar e sem a presença da família em seus últimos momentos.
Meu pai partiu anos atrás e sinto sua falta. Mas consolo-me por ter podido dizer que o amava. Por ter conseguido ter a última conversa com ele.
O que dizer quando ele está ao seu lado, e talvez você nunca mais tenha a oportunidade de lhe dirigir a palavra?
O que dizer ao seu pai, quando ele está agonizando ao seu lado, em um momento em que estão a sós, situação única na vida de pai e filho?
Ele esteve doente por décadas. Cresci vendo-o sofrer. Nos últimos meses piorou e nós, os filhos, resolvemos trazê-lo para perto de mim, visto que minhas duas irmãs moravam em outras cidades.
Minha mãe cuidava dele dia e noite. Ele já estava bem debilitado pela idade e pelo desgaste que a doença, enfisema, além de outras complicações, causaram.
Certo dia, quando eu estava ministrando uma palestra, me chamaram com urgência. Cheguei ao prédio em que meus pais moravam, ao lado de minha casa, e ele estava mal. Muito mal. A ambulância do SAMU foi chamada e o transportou imediatamente para o hospital.
Zoraide, minha irmã que morava em uma cidade próxima, já havia chegado. Então, resolvemos que ela levaria minha mãe de carro ao hospital e eu iria no SAMU acompanhando meu pai.
Foi ali, junto à maca em que ele estava deitado, provavelmente em choque, já sem conseguir falar, respirando com dificuldade, que tivemos nossa última conversa.
Na realidade, não foi uma conversa. Foi um monólogo. Eu falei, ele ouviu. Mas foi o momento mais profundo que tive com meu pai em toda a minha vida. Falei como filho. Falei como homem. Falei como pastor. Mas todas essas facetas de minha vida falaram a mesma coisa: meu amor por ele, minha dificuldade em manifestar esse amor no decorrer de nossas vidas, o desejo de conviver mais com ele, a falta que ele faria para mim, o desejo de vê-lo junto a Deus no momento que se aproximava.
O motorista e seu auxiliar no banco dianteiro provavelmente me ouviram. Talvez tenham achado estranho. Talvez não. Afinal, quantos outros filhos e pais estiveram ali, naquele mesmo lugar em que eu estava? Quantos falaram as mesmas palavras que eles ouviam naquele momento?
Experimentei profunda tristeza durante o trajeto entre o apartamento e o hospital. Naqueles momentos vivenciava, de forma concreta, a limitação e a fragilidade humana. Meu pai partiria em breve e, embora eu estivesse me preparando para sua morte a algum tempo, estava surpreso e despreparado diante da dor que sentia.
Entendi que aquele era o momento da despedida e que talvez não houvesse outra oportunidade. Não o ouvi dizer que me amava, que eu era importante para ele, que eu deveria cuidar de minha mãe etc. Não foi necessário. Eu sabia disso. Embora ele não fosse uma pessoa emotiva e com expressões de carinho, seu amor pela família era um fato. O que importa é que pude dizer ao meu pai tudo que sentia, e eu sabia que o fato dele ter me visto crescer, estudar, casar, ter filhos, possuir uma profissão digna, fazia-o sentir-se orgulhoso.
Ele foi internado em uma unidade de terapia semi-intensiva. No dia seguinte pronunciou algumas palavras e depois não conseguiu mais falar. Dia a dia foi piorando e depois de 20 dias ele faleceu. Foi triste vê-lo morrer em um hospital, longe do lar e sem a presença da família em seus últimos momentos.
Meu pai partiu anos atrás e sinto sua falta. Mas consolo-me por ter podido dizer que o amava. Por ter conseguido ter a última conversa com ele.
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