Crônicas de fatos, datas e pessoas, do passado e do presente, que são importantes para mim.
sábado, 12 de abril de 2014
Espaços da alma 1
São espaços sagrados, não religiosos, embora às vezes também o sejam.
Há um universo em seu interior. Desde as primeiras ideias surgidas na humanidade até os pensamentos mais (im) prováveis e (im)possíveis de realização.
Estou falando de bibliotecas.
Elas propiciam oportunidades de encontro com outras pessoas tão diferentes e, ao mesmo tempo, tão iguais a nós. Mesmo que não entendamos plenamente o que dizem, comungamos com os autores da conspiração por construir um mundo melhor, mais justo, mais humano. Quando isso não é possível, nos associamos às denúncias que lançam ao papel, seja em manifestos, em textos acadêmicos ou em ficções.
Quero falar de um desses encontros.
Ele se deu quando eu era estudante do então primeiro grau, quinta ou sexta série. Estava com onze ou doze anos. Escola pública.
Havia uma biblioteca que ficava... no porão. Isso mesmo, já naquela época, final dos anos setenta do século passado, esse era o espaço reservado para a fonte de conhecimento humano e lugar de pesquisa, quase nunca frequentado por alunos e professores.
Eu a encontrei. Devo reconhecer que possivelmente pelo fato de que havia uma mesa de ping-pong no porão da escola. Então, entre uma raquetada e outra, notei aquela sala meio esquecida no subsolo da humanidade.
Entrei. Olhei... olhei... e, de repente, ah, aquilo sim eu queria ler! A coleção de clássicos da literatura juvenil, publicada pela Editora Abril em cinquenta volumes. Era muita coisa, mas muita coisa mesmo para um menino de onze anos!
Mas encarei o desafio. Havia títulos como A ilha do tesouro, Conde de Monte Cristo, Os três mosqueteiros, Ben-Hur, Hobin Hood, Ivanhoé, Robson Crusoé, Vinte mil léguas submarinas, Volta ao mundo em oitenta dias, Rei Artur e seus cavaleiros, O corsário negro, O máscara de ferro, Carlos Magno e seus cavaleiros, A ilha misteriosa.
Li todos.
Em uma época onde não havia ideia de que existiria um dia a internet, em que canais de televisão paga eram um sonho de consumo inimaginável, em que as tevês coloridas ainda eram uma novidade, foram esses livros que se constituíram em porta de entrada para o mundo de fantasias. Gastei horas, dias, meses lendo.
Para a secretária da biblioteca foi um espanto que um aluno pegasse um livro após o outro, sem intervalos, com um apetite insaciável. Para meus pais, era estranho que o filho adolescente ficasse tanto tempo parado, quieto, lendo livros. Para mim, era uma revolução. Em meu cérebro e alma havia águas em tumulto, mundos submergindo, mundos surgindo com a força de uma explosão nuclear. Eu havia descoberto a literatura e o prazer de ler.
Nunca mais deixei os livros. Minhas leituras se tornaram heterodoxas, indo dos gibis à teses doutorais. Como professor, leio por obrigação profissional, mas também por prazer. Mas a imagem de piratas, mosqueteiros, arqueiros, reis, cavaleiros nunca mais deixaram minha mente. Mesmo diante de textos complexos, difíceis de serem entendidos, percebo às vezes a sombra de uma capa, a forma de uma espada, o vento do mar, a voz de um rei lembrando-me que a leitura traz mistérios e prazeres que inundam a alma.
sábado, 25 de janeiro de 2014
Água da vida
Tempo de preparativos.
Cachorros no canil.
Quarto pintado. Não uma pintura profissional, mas o que foi possível fazer.
Móveis, alguns comprados, outros presentes de pessoas queridas.
Roupas novas, mas também usadas por outros que já utilizam números maiores.
A bolsa. Escolhida a dedo. Com a figura de um cavalinho, como ela queria.
E lá vamos nós.
Uma. Duas. Três vezes.
Telefonemas, mensagens, carinho.
Uma densa nuvem de afeto a envolve.
Ainda não.
Dor... Alívio... dor mais forte... alívio... dor intensa...
E a bolsa.
- Minha bolsa estourou!
Surpresa, susto, seguidos de risos de alívio.
A cama molhada.
O líquido saindo aos borbulhões.
Água da vida!
Vida chegando.
Ele está às portas!
Para Melina e Mateus.
Cachorros no canil.
Quarto pintado. Não uma pintura profissional, mas o que foi possível fazer.
Móveis, alguns comprados, outros presentes de pessoas queridas.
Roupas novas, mas também usadas por outros que já utilizam números maiores.
A bolsa. Escolhida a dedo. Com a figura de um cavalinho, como ela queria.
E lá vamos nós.
Uma. Duas. Três vezes.
Telefonemas, mensagens, carinho.
Uma densa nuvem de afeto a envolve.
Ainda não.
Dor... Alívio... dor mais forte... alívio... dor intensa...
E a bolsa.
- Minha bolsa estourou!
Surpresa, susto, seguidos de risos de alívio.
A cama molhada.
O líquido saindo aos borbulhões.
Água da vida!
Vida chegando.
Ele está às portas!
Para Melina e Mateus.
sexta-feira, 17 de janeiro de 2014
No meu tempo...
A gente pensa que nunca vai chegar.
A gente até que tenta se adaptar ao novos tempos.
A gente tenta, inclusive, negar.
Mas o fato é que chega um momento na vida em que começamos a usar a expressão “No meu tempo...”
E ela se torna uma companheira constante, quase um vício.
Então, assumo que finalmente chegou a minha hora de dizer: “No meu tempo...”
Neste momento penso em meu passado religioso.
Entrei para o movimento evangélico no final dos anos 1970, ainda adolescente. E nesse tempo, no “Meu tempo...”
... pastor evangélico era, em geral, pobre. Mas respeitado, confiável, honesto, conhecedor da Bíblia. Nas pequenas cidades era contado entre as pessoas mais cultas.
... apóstolo era Mateus, Paulo, Pedro.
... cantávamos com a mesma alegria hinos e corinhos. Estes eram feitos por gente crente e piedosa, sem ambições artísticas, e sem cobrar por shows.
... havia diferença entre as denominações evangélicas, mas havia igualmente respeito, fraternidade, amor até. Em minha cidade no interior de São Paulo, vi mais de uma vez as igrejas presbiterianas, a Batista, a Metodista, a Assembleia de Deus e a Igreja do Evangelho Quadrangular se unirem para realizar cruzadas evangelísticas.
... havia consciência, principalmente entre os jovens, de que a missão da igreja era fazer discípulos, e que, para tanto, precisávamos sair para o mundo.
... aprendemos com o pastor e teólogo batista Russel Shedd que os cultos nas igrejas não deveriam visar o evangelismo, mas sim o ensino da Palavra, com o objetivo de edificar e instruir os cristãos.
... tentávamos desenvolver uma teologia e uma prática cristã contextualizada, autóctone, não importada do primeiro mundo econômico e teológico.
... tínhamos alegria de não mais depender de missionários estrangeiros e de seu dinheiro. Éramos igrejas pobres mas orgulhosas de viver por nós mesmos.
... não fazíamos propaganda de nossos pastores, chamando pessoas para ouvi-los. Entendíamos que o papel deles era nos ensinar e o nosso proclamar o evangelho aos nossos amigos e conhecidos.
... a doutrina era algo doméstico que aprendíamos e que nos alegrava, mas não era considerada uma bandeira e uma arma com as quais deveríamos travar batalhas com cristãos de outras denominações. A doutrina nos ensinava a adorar a Deus e a amar o próximo.
... havia reuniões de oração antes dos cultos e durante a semana. Os cristãos tinham convicção de que a oração era parte essencial da vida cristã.
“No meu tempo...” a igreja evangélica era menor, sem poder político, mas mais evangélica, mais piedosa, mais humilde, mais alegre, mais missionária e mais acolhedora.
... “No meu tempo”.
A gente até que tenta se adaptar ao novos tempos.
A gente tenta, inclusive, negar.
Mas o fato é que chega um momento na vida em que começamos a usar a expressão “No meu tempo...”
E ela se torna uma companheira constante, quase um vício.
Então, assumo que finalmente chegou a minha hora de dizer: “No meu tempo...”
Neste momento penso em meu passado religioso.
Entrei para o movimento evangélico no final dos anos 1970, ainda adolescente. E nesse tempo, no “Meu tempo...”
... pastor evangélico era, em geral, pobre. Mas respeitado, confiável, honesto, conhecedor da Bíblia. Nas pequenas cidades era contado entre as pessoas mais cultas.
... apóstolo era Mateus, Paulo, Pedro.
... cantávamos com a mesma alegria hinos e corinhos. Estes eram feitos por gente crente e piedosa, sem ambições artísticas, e sem cobrar por shows.
... havia diferença entre as denominações evangélicas, mas havia igualmente respeito, fraternidade, amor até. Em minha cidade no interior de São Paulo, vi mais de uma vez as igrejas presbiterianas, a Batista, a Metodista, a Assembleia de Deus e a Igreja do Evangelho Quadrangular se unirem para realizar cruzadas evangelísticas.
... havia consciência, principalmente entre os jovens, de que a missão da igreja era fazer discípulos, e que, para tanto, precisávamos sair para o mundo.
... aprendemos com o pastor e teólogo batista Russel Shedd que os cultos nas igrejas não deveriam visar o evangelismo, mas sim o ensino da Palavra, com o objetivo de edificar e instruir os cristãos.
... tentávamos desenvolver uma teologia e uma prática cristã contextualizada, autóctone, não importada do primeiro mundo econômico e teológico.
... tínhamos alegria de não mais depender de missionários estrangeiros e de seu dinheiro. Éramos igrejas pobres mas orgulhosas de viver por nós mesmos.
... não fazíamos propaganda de nossos pastores, chamando pessoas para ouvi-los. Entendíamos que o papel deles era nos ensinar e o nosso proclamar o evangelho aos nossos amigos e conhecidos.
... a doutrina era algo doméstico que aprendíamos e que nos alegrava, mas não era considerada uma bandeira e uma arma com as quais deveríamos travar batalhas com cristãos de outras denominações. A doutrina nos ensinava a adorar a Deus e a amar o próximo.
... havia reuniões de oração antes dos cultos e durante a semana. Os cristãos tinham convicção de que a oração era parte essencial da vida cristã.
“No meu tempo...” a igreja evangélica era menor, sem poder político, mas mais evangélica, mais piedosa, mais humilde, mais alegre, mais missionária e mais acolhedora.
... “No meu tempo”.
sábado, 11 de janeiro de 2014
Meu cocô voltou!
Uma manhã dessas, sem maiores atrativos, estava trabalhando em meu quarto transformado em escritório quando João Guilherme, meu filho de oito anos entra, vai para o banheiro e fecha a porta. Vi tudo com o canto dos olhos, concentrado que estava na tela do computador.
Menos de um minuto depois ele volta, com uma cara assustada e afirma: - meu cocô voltou!
Deixo o que estava fazendo, ainda sem entender direito o que ele disse e pergunto: - como assim, filho?
- Meu cocô voltou, pai!
- Isso é impossível, João Guilherme, cocô não volta.
- Mas meu cocô voltou, pai, insistiu. O cocô de ontem, que entupiu o vaso, voltou!
De fato, no dia anterior, nesse mesmo vaso, João Guilherme havia tido uma diarreia violenta. Ele chamou a mim e a Claudia para socorrê-lo. A privada, que já não estava bem das pernas, não havia levado seu cocô. Ele ficou tão impressionado que quando entramos no banheiro ele estava em pé no vaso sanitário, talvez com medo de um transbordamento seguido de uma inundação... de cocô.
Intrigado com a questão que desafiava tanto a física quanto a gravidade, fui com ele até o vaso e ele apontou triunfante: - tá vendo, pai? O cocô voltou!
Olhei para a triste cena e, realmente, o vaso estava cheio.
Meio sem graça, ainda que consolado pelo fato de que minha opinião estava correta, que cocô não volta como se fosse um fantasma de mau gosto, ou como uma comida que não caiu bem, expliquei que o problema não era que o cocô dele voltou, mas que o cocô que EU havia feito pela manhã não tinha ido.
Menos de um minuto depois ele volta, com uma cara assustada e afirma: - meu cocô voltou!
Deixo o que estava fazendo, ainda sem entender direito o que ele disse e pergunto: - como assim, filho?
- Meu cocô voltou, pai!
- Isso é impossível, João Guilherme, cocô não volta.
- Mas meu cocô voltou, pai, insistiu. O cocô de ontem, que entupiu o vaso, voltou!
De fato, no dia anterior, nesse mesmo vaso, João Guilherme havia tido uma diarreia violenta. Ele chamou a mim e a Claudia para socorrê-lo. A privada, que já não estava bem das pernas, não havia levado seu cocô. Ele ficou tão impressionado que quando entramos no banheiro ele estava em pé no vaso sanitário, talvez com medo de um transbordamento seguido de uma inundação... de cocô.
Intrigado com a questão que desafiava tanto a física quanto a gravidade, fui com ele até o vaso e ele apontou triunfante: - tá vendo, pai? O cocô voltou!
Olhei para a triste cena e, realmente, o vaso estava cheio.
Meio sem graça, ainda que consolado pelo fato de que minha opinião estava correta, que cocô não volta como se fosse um fantasma de mau gosto, ou como uma comida que não caiu bem, expliquei que o problema não era que o cocô dele voltou, mas que o cocô que EU havia feito pela manhã não tinha ido.
sábado, 4 de janeiro de 2014
Olha o velhinho!
Eu e Claudia, minha esposa, somos bem diferentes. Esse é um dos aspectos que me atrai nela.
Costumo dizer que a síntese de nossas personalidades pode ser ilustrada em uma fila de espera. Em um banco, por exemplo. Vou para ela com um livro e saio dela com algumas páginas lidas. Claudia não. Ela vai sozinha para a fila. Mas, ao deixá-la, conversou com todo mundo, brincou com vários, contou piadas, trocou cartões, fez amizades. Assim é Claudia.
Claudia invariavelmente está de bom humor. Sempre está disposta a encontrar motivo de riso em qualquer circunstância. Procura ver algum aspecto positivo mesmo nas piores situações.
Final de ano, fomos ao supermercado. Se pudesse não iria. Prefiro a tranquilidade de minha casa, assistindo TV ou lendo um livro. Nesse dia não foi possível.
Como era de se esperar, parece que a cidade toda estava fazendo compras. E aí, os inevitáveis choques entre carrinhos, os esbarrões com a multidão, as latas caindo das prateleiras, os funcionários correndo de um lado para outro...
Estamos na seção de hortifrúti. Enquanto fico estacionado em um canto, cuidando do carrinho, com cara de paisagem, Claudia percorre com desenvoltura os corredores escolhendo um alface aqui, pegando umas batatas ali, lembrando das bananas que estão na outra banca.
Quando Claudia vem a mim trazendo vários produtos, ouvimos uma voz perguntando se o carrinho é nosso. Ao nos voltarmos vemos um rapaz que aponta para um carrinho vazio ao lado. Estranho.
Estranho um rapaz fazendo compras sozinho. Isso acontece, mas é incomum. Talvez ele esteja ali por obrigação, mesmo constrangido, não acostumado àquela bagunça. Estranho um carrinho abandonado, sozinho. Estará disponível? Ou então alguém o deixou no canto para fazer compras para em seguida colocá-las nele?
Quando eu ia responder a pergunta, racionalizando sobre as possibilidades do carrinho estar livre ou esperando seu dono, Claudia foi mais rápida. Com seu senso de humor, comenta: - está livre ou é de algum velhinho? - Acho que está livre.
O rapaz, meio indeciso, pega o carrinho, não sem antes dar uma olhada ao redor para se garantir, e sai. Quando dá os primeiros passos, dando as costas para nós, Claudia dispara: - Olha o velhinho!
O moço abaixa a cabeça e acelera o passo, temeroso de ser pego em flagrante.
Olho para Claudia e ela está rindo aos montes.
Essa é a minha esposa.
Costumo dizer que a síntese de nossas personalidades pode ser ilustrada em uma fila de espera. Em um banco, por exemplo. Vou para ela com um livro e saio dela com algumas páginas lidas. Claudia não. Ela vai sozinha para a fila. Mas, ao deixá-la, conversou com todo mundo, brincou com vários, contou piadas, trocou cartões, fez amizades. Assim é Claudia.
Claudia invariavelmente está de bom humor. Sempre está disposta a encontrar motivo de riso em qualquer circunstância. Procura ver algum aspecto positivo mesmo nas piores situações.
Final de ano, fomos ao supermercado. Se pudesse não iria. Prefiro a tranquilidade de minha casa, assistindo TV ou lendo um livro. Nesse dia não foi possível.
Como era de se esperar, parece que a cidade toda estava fazendo compras. E aí, os inevitáveis choques entre carrinhos, os esbarrões com a multidão, as latas caindo das prateleiras, os funcionários correndo de um lado para outro...
Estamos na seção de hortifrúti. Enquanto fico estacionado em um canto, cuidando do carrinho, com cara de paisagem, Claudia percorre com desenvoltura os corredores escolhendo um alface aqui, pegando umas batatas ali, lembrando das bananas que estão na outra banca.
Quando Claudia vem a mim trazendo vários produtos, ouvimos uma voz perguntando se o carrinho é nosso. Ao nos voltarmos vemos um rapaz que aponta para um carrinho vazio ao lado. Estranho.
Estranho um rapaz fazendo compras sozinho. Isso acontece, mas é incomum. Talvez ele esteja ali por obrigação, mesmo constrangido, não acostumado àquela bagunça. Estranho um carrinho abandonado, sozinho. Estará disponível? Ou então alguém o deixou no canto para fazer compras para em seguida colocá-las nele?
Quando eu ia responder a pergunta, racionalizando sobre as possibilidades do carrinho estar livre ou esperando seu dono, Claudia foi mais rápida. Com seu senso de humor, comenta: - está livre ou é de algum velhinho? - Acho que está livre.
O rapaz, meio indeciso, pega o carrinho, não sem antes dar uma olhada ao redor para se garantir, e sai. Quando dá os primeiros passos, dando as costas para nós, Claudia dispara: - Olha o velhinho!
O moço abaixa a cabeça e acelera o passo, temeroso de ser pego em flagrante.
Olho para Claudia e ela está rindo aos montes.
Essa é a minha esposa.
segunda-feira, 30 de dezembro de 2013
Prepare o seu coração...
Não quero idealizar o ano que chega.
Não quero fazer votos.
Não quero me escravizar a compromissos.
Não quero circular dias na agenda.
Não quero entrar na roda-viva de um mundo que não me conhece mas que busca roubar minha alma.
Quero saber de onde venho.
Quero nutrir minhas raízes.
Quero reafirmar minha identidade.
Quero me alimentar de minhas antigas histórias.
Quero ter consciência de que é preciso dizer não.
Quero seguir em frente, mesmo vendo a morte.
Somente assim terei o que contar.
Somente assim reconhecerei que há coisas fora do lugar.
Somente assim poderei, mesmo que ingenuamente, pensar que há coisas a serem consertadas.
Prepare o seu coração pras coisas que eu vou contar
Eu venho lá do sertão, eu venho lá do sertão
Eu venho lá do sertão e posso não lhe agradar
Aprendi a dizer não, ver a morte sem chorar
E a morte, o destino, tudo, a morte e o destino, tudo
Estava fora do lugar, eu vivo prá consertar
Disparada, de Geraldo Vandré, me chama, me prepara, me alimenta para mais um ano.
Ouça Disparada na versão original do Festival de Música de 1966 e em nova interpretação. Ambas por Jair Rodrigues.
http://www.youtube.com/watch?v=82dRs2z6iQs
http://globotv.globo.com/rede-globo/altas-horas/v/jair-rodrigues-se-apresenta-com-o-disparada/2555864/
Não quero fazer votos.
Não quero me escravizar a compromissos.
Não quero circular dias na agenda.
Não quero entrar na roda-viva de um mundo que não me conhece mas que busca roubar minha alma.
Quero saber de onde venho.
Quero nutrir minhas raízes.
Quero reafirmar minha identidade.
Quero me alimentar de minhas antigas histórias.
Quero ter consciência de que é preciso dizer não.
Quero seguir em frente, mesmo vendo a morte.
Somente assim terei o que contar.
Somente assim reconhecerei que há coisas fora do lugar.
Somente assim poderei, mesmo que ingenuamente, pensar que há coisas a serem consertadas.
Prepare o seu coração pras coisas que eu vou contar
Eu venho lá do sertão, eu venho lá do sertão
Eu venho lá do sertão e posso não lhe agradar
Aprendi a dizer não, ver a morte sem chorar
E a morte, o destino, tudo, a morte e o destino, tudo
Estava fora do lugar, eu vivo prá consertar
Disparada, de Geraldo Vandré, me chama, me prepara, me alimenta para mais um ano.
Ouça Disparada na versão original do Festival de Música de 1966 e em nova interpretação. Ambas por Jair Rodrigues.
http://www.youtube.com/watch?v=82dRs2z6iQs
http://globotv.globo.com/rede-globo/altas-horas/v/jair-rodrigues-se-apresenta-com-o-disparada/2555864/
segunda-feira, 23 de dezembro de 2013
Querido Jesus...
Querido Jesus, a cristandade está próxima de comemorar teu nascimento. Cerimônias serão realizadas, haverá apresentações musicais, encontros entre amigos e familiares. Alegria, comida, bebida.
De minha parte, gostaria apenas de fazer alguns pedidos no teu dia.
Querido Jesus, que neste natal a tua experiência de nascimento humilde, em uma família pobre, em um lugar emprestado de animais, envolto em panos rotos, o leve a olhar para tantas crianças no Brasil que passam por experiência semelhante ou pior.
Muitas delas não gozarão do privilégio que você teve. Elas não chegarão a erguer-se em suas próprias pernas, não terão a oportunidade de chamar os pais pelo nome, não farão uma refeição sozinhas. Elas nascerão mortas ou deixarão suas tristes vidas minutos ou horas após suas mães as tomarem em seus braços.
Os pequeninos serão vítimas de políticas governamentais equivocadas ou criminosas, feitas por gente que privilegia votos e despreza crianças.
Esses bebês são gerados por mães desnutridas e famintas, conhecendo a luz em casebres e barracos indigentes. Seus pais choram em silêncio, dia após dia, ao verem os filhos pedindo comida e não tendo o que oferecer.
Querido Jesus, olhe para essas crianças e mude o destino delas. Permita que a estrela que brilhou em Belém também fulgure sobre seus lares. Faça com que a estrela conduza magos com presentes até elas. Os presentes podem ser bem mais simples e humildes do que aqueles que você recebeu. Basta algum dinheiro para medicamentos, poucas trocas de roupa, ou mesmo alguns pacotes de fraldas.
Ah, e não se esqueça, querido Jesus, que nas cidades onde essas crianças nascerem exista pelo menos um posto de atendimento médico, com pelo menos um pediatra. Muitos recém-nascidos precisam deles. E não há problema com as filas. Os pais estão acostumados a elas.
Querido Jesus, que existam pessoas que festejem a chegada desses humildes bebês como os anjos ao anunciar o teu nascimento. Que eles sejam visitados por pessoas alegres como os pastores que foram vê-lo. Que os pequeninos sejam abraçados por Simeão e Ana, como avós fazem com seus netos desejados e queridos.
Querido Jesus, peço que as crianças pobres e humildes do Brasil gozem da mesma experiência tua: crescer em sabedoria, estatura e graça diante de Deus e dos homens.
Jesus, se me permite, gostaria de alterar a ordem das palavras. Que, antes de tudo, as crianças pobres e sofredoras do Brasil cresçam em "estatura". Afinal, muitas deixam a vida ainda pequeninas, nunca chegando a experimentar a sabedoria e a graça que o Senhor tem para elas.
Querido Jesus, pedi muito? Acho que não. O senhor, que antes de ser verdadeiro homem-Deus foi uma verdadeira criança-Deus, certamente compreenderá meus pedidos.
De minha parte, gostaria apenas de fazer alguns pedidos no teu dia.
Querido Jesus, que neste natal a tua experiência de nascimento humilde, em uma família pobre, em um lugar emprestado de animais, envolto em panos rotos, o leve a olhar para tantas crianças no Brasil que passam por experiência semelhante ou pior.
Muitas delas não gozarão do privilégio que você teve. Elas não chegarão a erguer-se em suas próprias pernas, não terão a oportunidade de chamar os pais pelo nome, não farão uma refeição sozinhas. Elas nascerão mortas ou deixarão suas tristes vidas minutos ou horas após suas mães as tomarem em seus braços.
Os pequeninos serão vítimas de políticas governamentais equivocadas ou criminosas, feitas por gente que privilegia votos e despreza crianças.
Esses bebês são gerados por mães desnutridas e famintas, conhecendo a luz em casebres e barracos indigentes. Seus pais choram em silêncio, dia após dia, ao verem os filhos pedindo comida e não tendo o que oferecer.
Querido Jesus, olhe para essas crianças e mude o destino delas. Permita que a estrela que brilhou em Belém também fulgure sobre seus lares. Faça com que a estrela conduza magos com presentes até elas. Os presentes podem ser bem mais simples e humildes do que aqueles que você recebeu. Basta algum dinheiro para medicamentos, poucas trocas de roupa, ou mesmo alguns pacotes de fraldas.
Ah, e não se esqueça, querido Jesus, que nas cidades onde essas crianças nascerem exista pelo menos um posto de atendimento médico, com pelo menos um pediatra. Muitos recém-nascidos precisam deles. E não há problema com as filas. Os pais estão acostumados a elas.
Querido Jesus, que existam pessoas que festejem a chegada desses humildes bebês como os anjos ao anunciar o teu nascimento. Que eles sejam visitados por pessoas alegres como os pastores que foram vê-lo. Que os pequeninos sejam abraçados por Simeão e Ana, como avós fazem com seus netos desejados e queridos.
Querido Jesus, peço que as crianças pobres e humildes do Brasil gozem da mesma experiência tua: crescer em sabedoria, estatura e graça diante de Deus e dos homens.
Jesus, se me permite, gostaria de alterar a ordem das palavras. Que, antes de tudo, as crianças pobres e sofredoras do Brasil cresçam em "estatura". Afinal, muitas deixam a vida ainda pequeninas, nunca chegando a experimentar a sabedoria e a graça que o Senhor tem para elas.
Querido Jesus, pedi muito? Acho que não. O senhor, que antes de ser verdadeiro homem-Deus foi uma verdadeira criança-Deus, certamente compreenderá meus pedidos.
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